Peter
Carl Fabergé era um russo descendente de franceses. No auge do
seu sucesso, por volta da mudança do século retrasado, as
suas oficinas em São Petersburgo empregavam quinhentos joalheiros,
ferreiros e aprendizes. Tinha dependências em Moscou, Londres e
Paris e fazia um negócio extraordinário em prata e ouro,
especialmente em grandes serviços de jantar. A sua fama contudo
deve-se à qualidade extraordinária da sua joalheria. O gênio
de Fabergé era
ignorar o vistoso relevo que se dava às pedras preciosas e subordinar
as gemas ao padrão do trabalho. Ao desenhar uma cigarreira, por
exemplo, os operários de Fabergé usavam esmalte de um azul
translucido, vermelho ou rosa como matéria principal, rematando
as bordas com uma fila de pequenos diamantes. O resultado era uma obra-prima
de sobriedade, elegância e beleza.
Fabergé
era oficialmente o joalheiro da Corte do Czar da Rússia, mas os
seus clientes eram internacionais. O Rei Eduardo VII era um cliente regular,
sempre a pedir "Não queremos cópias", ao que Fabergé
podia responder sempre com segurança calma: "Vossa Majestade
ficará satisfeita". Num só dia, em 1898, a Casa Fabergé
recebeu o Rei e a Rainha da Noruega, os Reis da Dinamarca e Grécia,
e a Rainha Alexandra da Inglaterra, mulher de Eduardo VII. Na Rússia,
nenhum casamento principesco, nenhum nascimento grão-ducal, nenhum
jubileu regimental ou de sociedade estaria completo sem uma chuva de broches,
colares, brincos, cigarreiras, botões de punho e relógios
de Fabergé. Fabergé produzia coleções de jóias
imaginativas de tirar o fôlego. Com as jóias os seus operários
modelavam flores, minúsculos animais, figuras de camponeses russos,
cantores ciganos e
cavaleiros cossacos. As suas miniaturas incluíam pequeninas sombrinhas,
regadores ornamentados com diamantes, uma estátua equestre de Pedro,
o Grande, feita em ouro, como dois centímetros de altura, um armário
Luís XVI de ouro com doze centímetros de altura, e cadeiras
de sete centímetros e meio feitas de ouro e esmalte com os interiores
de madrepérola.
As
expressões supremas de Fabergé eram os célebres cinquenta
e seis ovos Imperiais de Páscoa que criou para os czares russos,
Alexandre
III e Nicolau II. O Czar Alexandre iniciou o costume em 1884 quando ofereceu
um ovo Fabergé a sua mulher, a Imperatriz Maria Feodorovna. Depois
da morte do pai, Nicolau continuou com o costume, encomendando dois ovos
por ano, um para sua mulher e outro para a mãe. A escolha dos materiais
e do desenho ficava inteiramente entregue a Fabergé, que rodeava
a sua construção, nas suas oficinas, do maior segredo. A
partir das primeiras destas encomendas, Fabergé teve a idéia
de usar o ovo só como uma casca que se abriria, revelando uma surpresa.
No interior, podia estar um cesto de flores sevagens feitas de leitosas
pétalas de calcedonia e folhas de ouro. Em outro caso a parte superior
do ovo poderia abrir-se a todas as horas e sair de lá um galinho
de esmalte e predas preciosas que cantava e batia as asas.
O
problema de Fabergé era que a obra-prima de cada ano dificultava
muito mais a
tarefa para o ano seguinte. Na verdade nunca excedeu o Ovo de Páscoa
do Trans-Siberiano que ele fez em 1900. Como Nicolau II, quando czarevitch
fora presidente da Estrada de Ferro Trans-Siberiana, Fabergé criou
um ovo de esmalte azul, verde e amarelo no qual finas incrustrações
de prata desenhavam o mapa da Sibéria e o percurso do transiberiano.
A parte superior do ovo podia ser erguida tocando-se na águia de
duas cabeças douradas que estava por cima, revelando a surpresa.
Era um modelo em escala, com trinta centímetros de comprimento,
um centímetro e meio de largura, das cinco carruagens e locomotiva
do expresso da Sibéria. O trem funcionava dando umas voltas com
a chave de ouro que vinha com ele, assim a locomotiva, de ouro e platina,
com um rubi brilhando no seu farol, conseguia puxar o comboio.
Fabergé
sobreviveu à Revolução, mas não a sua arte.
Com as oficinas destruídas e os seus principais operários
dispersos, Fabergé fugiu da Rússia em 1918 disfarçado
de diplomata e viveu os seus dois últimos anos na Suíça.
Artista e fornecedor de imperadores, criara obras de arte que sobrevivem
como símbolos duma época desaparecida, uma época
de opulência mas também de habilidade, integridade e beleza.

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