O Pássaro de Fogo

Era uma vez, em uma pequena vila, na Rússia medieval, uma órfã de fala mansa chamada Maryushka. Sua reputação como talentosa bordadeira tornava-se conhecida por vilas e cidades cada vez mais distantes, e seu amor por seu trabalho era tal que ela só vendia a quem os apreciasse. Os que eram pobres, mas tratassem seu trabalho com respeito e admiração, podiam levá-los por poucos copeques, e os ricos, em geral, pagavam mais. Ela estava sempre feliz com o que recebia, sabendo que suas criações estavam nas mãos de pessoas que as valorizavam.

Conforme sua fama se estendia, mercadores, que nunca haviam visto bordados tão lindos, viajavam através dos mares para comprar seu trabalho. Eles também levavam a ela belas contas e tecidos de seda, para usar em seus bordados. Acima de tudo, os mercadores prometiam a ela fama e fortuna se fossem com eles trabalhar em suas grandes cidades. A resposta era sempre a mesma: "Não preciso de riqueza, e jamais desejo deixar a querida vila onde nasci. Mas certamente venderei meu trabalho a todos que o acharem belo". Embora os mercadores se desapontassem com a resposta, quando voltavam para casa, divulgavam pelo mundo seus bordados maravilhosos e seu caráter leal.

A fama dessa jovem adorável estendeu-se até o fim do mundo, chegando até os ouvidos do feiticeiro mau, Kaschei, o Imortal. Ele ficou obcecado com o desejo de encontrá-la e tê-la só para o seu reino, então tomou a forma de um belo jovem e voou sobre os profundos oceanos, as montanhas elevadas e as florestas intransponíveis até encontrá-la.

Quando chegou a sua casa, ele fez uma profunda reverência, como era o costume, e pediu para ver os bordados que haviam feito Maryushka tão famosa. Ela trouxe muitas peças diferentes, como camisas, blusas, toalhas, lenços, xales e toalhas de mesa, cada uma mais bela do que a outra. "Meu Senhor" - ela disse - "mesmo que você não tenha dinheiro, pode levar o que lhe agradar e pagar-me mais tarde. Se meu trabalho não o agradar, por favor me aconselhe e eu farei o melhor possível para bordar ao seu gosto."

Suas doces palavras e a percepção de que seu talento de artista era maior que qualquer coisa que o feiticeiro pudesse criar com magia o enraiveceram. Ele assumiu seu tom mais dissimulado e exclamou: "Venha comigo, Maryushka, e eu farei de você uma rainha. Você vai residir em bem-estar e glória perpétuos em um palácio de jóias preciosas. Você vai comer em pratos de ouro e prata e dormir em plumas de ganso. Sua vida vai ser cheia da música dos pássaros do paraíso e os jardins nos quais você caminhará serão adornados com braçadas de flores e frutas."

"Não fale mais nada, caro senhor, da riqueza desconhecida para mim. A música das vozes dos meus vizinhos e o aroma do pão assando em meu forno seriam mais agradáveis para mim que todas as estranhas maravilhas que descreves. Eu nunca poderia deixar a vila em que nasci e onde meus pais estão enterrados. Estes campos e florestas me trazem alegria, assim como meus bordados trazem alegrias para os meus vizinhos. Eu jamais bordaria apenas para você."

Kaschei ficou ainda mais furioso com a resposta. Seu rosto ficou distorcido pela raiva e ele respondeu: "Porque minha oferta foi tão desagradável para você, você vai se tornar um pássaro, e não mais uma doce jovem".

Em um instante um colorido pássaro de fogo agitou suas assas e voou de onde Maryushka estava. Kaschei, o mau, trasformou-se em um grande falcão negro e elevou-se nos ares para capturar o pássaro de fogo. Com suas garras afiadas ele apanhou-a e carregou-a acima das nuvens. Ao perceber que aquelas garras de ferro a estavam levando para longe e que não tinha mais chances de voltar para a sua vila, ela decidiu deixar uma última lembrança para a terra que amava.

Ela desprendeu sua brilhante plumagem, pena após pena flutuando sobre as florestas e riachos. Conforme as penas caíam, a força de Maryushka a abandonava. Ela morreu nas garras do falcão negro. Mas suas penas continuaram a viver. Até hoje, elas podem ser encontradas sobre o chão com seu brilho intacto. Certamente não são penas comuns, mas mágicas e imortais, que podem ser vistas apenas que amam a beleza e que procuram levá-las para os outros.

Tradução e adaptação: Paulo M. Rezzutti e Adriana Moura, todos os direitos reservados, proibida reprodução sem autorização.