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O
pescador e o peixe
O pescador ficou espantado e assustado porque nunca havia ouvido um peixe falar antes. Ele deixou o peixe ir embora dizendo suavemente a ele: "Deus te abençoe, peixe dourado. Eu não preciso de nada de você". O pescador voltou para casa e contou para sua mulher a coisa maravilhosa que acontecera com ele na beira do mar. Mas ela amaldiçoou-o ferozmente e disse: "Você é um tolo em não fazer um desejo! Ao menos você podia ter pedido uma bilha d'água, já que a nossa quebrou". O velho voltou para a beira do mar, onde pequenas ondas ondulavam sobre a areia. Ele chamou pelo peixe dourado, que nadou e perguntou: "De que você precisa, velho homem?". Ele inclinou-se e respondeu que sua mulher o amaldiçoara porque precisava de uma nova bilha. O peixe animou-o e prometeu cumprir seu desejo. Quando o pescador voltou para casa, viu a nova bilha. Mas sua mulher gritou com ele: "Você é um tolo! Volte ao peixe! Peça uma nova casa". O pescador voltou para o mar, onde a água e o céu começavam a escurecer. Ele chamou o peixe, que nadou até onde ele estava. O pescador pediu desculpas e disse que sua mulher rabugenta queria uma nova casa. O peixe o animou e prometeu dar o que desejava. Quando ele retornou, viu um belo chalé novo com portão. Mas sua mulher gritou ainda mais alto: "Você é um tolo! Volte ao peixe! Eu não quero ser uma camponesa ordinária, eu quero ser uma nobre!". O pobre velho pescador voltou para o mar. As ondas começavam a se erguer e bater com força nas pedras, e o céu estava ainda mais escuro. Ele chamou o peixe dourado, que nadou e perguntou o que ele queria. O pescador se inclinou humildemente e explicou: "Não se zangue, Sua Majestade Peixe Dourado. Minha mulher ficou louca; ela quer ser uma nobre". O peixe o animou. E o que aconteceu quando ele voltou para casa? A isbá tornara-se uma grande casa. Sua mulher estava vestindo um caríssimo casaco de zibelina e tinha um kokoshnik (toucado) de brocado. Ela trazia colares de pérolas e anéis de ouro. Havia muitos servos alvoroçados em torno dela, que esbofeteava-os. O pescador disse: "Saudações, minha senhora. Eu espero que você esteja satisfeita agora". Ela não se dignou a responder, mas ao invés disso ordenou que ele fosse viver no estábulo. Várias semanas depois, a mulher ordenou que seu marido viesse vê-la e instruiu-o a voltar ao mar, dizendo: "Eu ainda estou sujeita ao governo dos que estão acima de mim! Eu quero ser a rainha de toda a terra!". O velho, apavorado, disse: "Você está louca, velha? Você não tem a menor idéia sobre os modos da corte. Todo mundo riria de você". A estas palavras, sua mulher ficou cheia de raiva, esbofeteou sua face e ordenou que obedecesse. O velho voltou à beira do mar. A água estava agitada, o céu e o mar tinham se tornado quase negros. Ele chamou o peixe dourado. Quando ele nadou para a margem, o velho se inclinou e disse que sua mulher agora queria ser a rainha da terra. O peixe o animou e o mandou de volta para casa. Quando o pescador chegou, encontrou um grande palácio, dentro do qual sua mulher estava sentada em um trono. Boiardos e outros nobres eram seus servos. Em torno dela estavam guardas ameaçadores. O velho ficou apavorado, mas se aproximou da rainha e disse: "Saudações, Sua Majestade. Espero que você esteja feliz agora". Ela nem sequer olhou para ele, e seus guardas o levaram embora. Muitas semanas mais tarde, a rainha chamou o velho pescador e novamente ordenou-lhe que voltasse ao mar, desta vez para pedir ao peixe dourado que se tornasse seu servo e fizesse dela Imperatriz da Terra e do Mar. O pescador ficou tão apavorado que nem mesmo protestou. Submissamente, voltou para o mar. Uma terrível tempestade se formara, com raios, trovões e ondas gigantescas quebrando contra as pedras. O velho chamou tão alto quanto podia e o peixe surgiu no meio das ondas. O pescador explicou o que sua mulher queria agora. Desta vez, o peixe dourado não respondeu, mas voltou-se e nadou para longe. Depois de esperar muito tempo em vão, o pescador voltou para casa... onde encontrou sua velha isbá lamacenta, sua pobre mulher velha e uma bilha quebrada em frente a ela. Tradução e adaptação: Paulo M. Rezzutti e Adriana Moura, todos os direitos reservados, proibida reprodução sem autorização. |