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Ainda
que sofrendo a sua influência, a Rússia estava bastante afastada
de Bizâncio, para que a Igreja russa pudesse evoluir independentemente
da expansão muçulmana no Próximo Oriente e das suas
conseqüências após a libertação. Em seguida
à conversão do príncipe Vladimir do principado de
Kiev, só a "Rússia" de então irradiou uma
espiritualidade ortodoxa que compreendia características já
especificamente eslavas, tal como aparece na hagiografia dos santos desta
época: insistência sobre o Com
a conquista da Rússia pelos Mongóis (século XIII)
os "Tártaros," os cristãos russos fizeram eles
também a "experiência" da dominação
muçulmana. O irradiar da Igreja será atenuado durante algum
Depois
da proclamação da independência da Igreja russa em
relação a Constantinopla, que não tardará
a sucumbir perante a ofensiva turca, e depois da vitória russa
sobre os Tártaros (1480), Moscovo, aos olhos de muitos, merecia
ser chamada a "Terceira Roma." Era o índice certo de
que a idéia de um "Império cristão" tinha
conquistado a Rússia, cujos meios principescos se apressarão
a imaginar-se continuadores da teocracia bizantina. A esta concepção,
uma minoria religiosa, animada por Nil Sorskij, um asceta rigoroso, opunha-se
tanto mais violentamente quanto ele receava com justa razão que
a idéia de um "Império cristão" iria de
fato permitir ao Estado controlar a Igreja. Este receio, de que o reinado
de Ivan o Terrível tinha já dado uma prova bem fundada,
mostrar-se-á ter sido realmente profético por ocasião
da luta do czar Pedro o Grande contra Nikon, patriarca de Moscovo (1652-1658).
Este tinha procurado, E preciso acrescentar, no entanto, que este período, como outras épocas mais sombrias da Igreja ortodoxa, conheceu um florescer real da espiritualidade monástica, sob o impulso de homens como S. Tikhon de Zadonsk, Paisij Velickovskij, S. Serafim de Sarov e outros. Graças a eles, a Ortodoxia soube, no último século, atrair a si numerosos intelectuais e artistas, entre os quais Dostoievsky e Gogol. É certo que a teologia ensinada oficialmente nos seminários, sobretudo no fim do século, era ainda fortemente marcada pelas categorias de pensamento católicas romanas, e mesmo protestantes. Ela sofria, perdendo assim em parte a sua identidade ortodoxa, a influência da conceitualização racionalista ocidental. Entretanto, a vida espiritual, alimentada pelos escritos dos Padres gregos e dos espirituais russos e pela vida litúrgica sempre fiel às suas origens, irradiava poderosamente dos centros monásticos onde os startzi (os "Antígos") atraíam multidões numerosas, ávidas de paz e de aprofundamento de sentido humano. Infelizmente, conforme escreve o padre Meyendorff, "esta reconciliação não era suficiente para suster o curso dos acontecimentos que demasiados elementos sociais e econômicos tinham preparado desde há bastante tempo" (Ibid. p. 103). Quanto ao sistema de instrução desenvolvido pela Igreja no decorrer do último século, notável sob muitos aspectos, ele contribuía, antes de mais, para dar a sua bagagem intelectual aos futuros revolucionários. É certo que, paralelamente a estes desenvolvimentos, a Igreja russa tomou consciência da sua vocação missionária - e assim a continuação da expansão missionária na direção do leste até ao Alasca mas os acontecimentos revolucionários do começo do nosso século não tardaram a pôr-lhe termo.
Presentemente, sem ter desaparecido, a Igreja sobrevive por si mesma cada vez mais dificilmente. A situação atual das Igrejas Ortodoxas Em
nossos dias, as Igrejas ortodoxas estão estabelecidas em contextos
sociais, políticos e étnicos bastante diferentes para que
se possa dizer que a Ortodoxia de hoje encarna, à sua maneira,
a realidade da Igreja universal. A maior parte dos seus fiéis vive
em sociedades que se reclamam da ideologia marxista. Embora a atitude
dos governos a seu respeito seja marcada, nestes países a União
Soviética, a Romênia. a Bulgária, a Iugoslávia,
a Albânia e a Polônia, de uma agressividade análoga,
a situação de cada Igreja nacional depende, entretanto,
de certos fatores locais que impedem as generalizações rápidas.
Assim, por exemplo, segundo os últimos relatórios que nos
chegaram (Estado da situação em 1966), parece que na Romênia
e na Iugoslávia a margem real de liberdade é consideravelmente
maior do que nos outros países referidos, que a Igreja ortodoxa
pode beneficiar do número mínimo de instituições
(seminários, academias, etc). necessários ao seu desenvolvimento,
e particularmente pode manter um certo número de mosteiros. Do
mesmo modo, a atitude dos dirigentes eclesiásticos a respeito das
pressões governamentais e sociais parece variar. Na Rússia
soviética, por exemplo, sem que seja possível afirmá-lo
com uma certeza absoluta, parece que a hierarquia é obrigada a
seguir uma linha mais "flexível" em relação
ao governo, aceitando, por assim dizer, sem reagir, as limitações
recentes da liberdade religiosa (Em Março de 1966, novos decretos
do Praesidium supremo da URSS proíbem particularmente o ensino
religioso às crianças, mesmo no seio das famílias)
impostas pelo Governo soviético. Como prova disso, estão
os recentes protestos de dois jovens padres moscovitas, em Novembro de
1965, um dirigido ao Governo e levantando-se contra a "não
aplicação do princípio da separação
do Estado e da Igreja," o outro ao patriarca Aléxis para denunciar
"a passividade cúmplice de uma parte dos bispos a propósito
das ações anti-religiosas do regime." Da mesma forma,
a natureza dos trabalhos científicos dos teólogos A primeira vista, a situação da Igreja ortodoxa da Grécia, a qual se assemelha à da Igreja de Chipre, parece bem mais diferente. Comparada com a das Igrejas suas irmãs que vivem numa sociedade comunista, é florescente: Paróquias em plena atividade; "povo cristão;" movimentos de leigos - tais como o "Zoe" - realizando um trabalho notável de missão interna; instrução teológica de um nível elevado: tudo indica que esta Igreja do Estado - a Religião da Grécia é a religião grega ortodoxa - pôde, após a libertação do domínio turco, expandir-se em função das suas próprias possibilidades, sem ser incomodada por obstáculos exteriores. Entretanto, não faltam vozes autorizadas - e as tensões recentes entre o Estado e a hierarquia da Igreja a respeito da nomeação dos novos bispos parecem dar-lhes razão - para dizerem que estas aparências são, em parte, enganadoras. O teólogo grego Nissiotis, por exemplo, observa (N. A. Nissiotis: L'Église et Ia Société dans Ia Théologie ortodoxe grecque, in "L'éthique sociale chrétienne dans un monde en transformation." Eglise et Société, Genebra, 1966, p. 56-75) que a igreja grega contemporânea não conseguiu ainda dominar todas as implicações da secularização atual. Ela persiste em crer que "os jovens devem vir à Igreja, uma vez que é a sua Igreja." Porque ela se identificou muito estreitamente com a ordem estabelecida, reflexo que já verificamos tanto na Igreja bizantina como na Igreja russa do antigo regime, a Ortodoxia grega de hoje não realiza ainda inteiramente as exigências sociais do Evangelho, por exemplo no plano da distribuição eqüitativa das riquezas do país entre todos os cidadãos. A Igreja grega, julga este autor, deve descobrir o seu caráter universal, sendo ao mesmo tempo menos "grega" - ela associa muito de perto a Ortodoxia ao helenismo moderno - e sendo ativamente a Igreja para todos os Gregos: ela deve recusar identificar-se com urna estrutura social que favorece urna minoria. A Igreja ortodoxa continua, para além disso, a ser uma presença cristã junto do mundo muçulmano. Como tal, ela é ao mesmo tempo mal aceite pela maioria dos habitantes e ela própria é relativamente pouco eficaz devido ao fato do conservantismo ao qual se reduziu, num ou noutro lado, mercê da sua situação minoritária. Assim, por exemplo, o patriarcado de Constantinopla hoje Istambul que goza de uma primazia de honra sobre todas as Igrejas ortodoxas, mas cuja jurisdição direta não se estende senão sobre um número reduzido de fiéis (patriarcado de Constantinopla exerce a sua jurisdição direta sobre o, raros gregos, que subsistem na Turquia no Monte Atos, em Igreja, de emigrados na América e na Europa. em algumas ilhas do mar Egeu), deve o prolongamento do seu direito de residência na Turquia à proteção das instâncias internacionais. A parte os patriarcas tradicionais de Alexandria e de Jerusalém, cuja jurisdição se estende sobre grupos de fiéis, a maior parte de origem grega, o patriarcado de Antioquia merece ser assinalado, uma vez que, ocupando o Líbano e a Síria, constitui a maior comunidade cristã de raça e de língua árabes. Graças à iniciativa do seu movimento de juventude, verifica-se aí não só um despertar espiritual e monástico que vai até ao pôr em questão tradições veneráveis e ultrapassadas pelos acontecimentos, mas ainda um princípio de diálogo em profundidade com o mundo muçulmano. Convém citar, em último lugar, o papel importante que desempenham as comunidades ortodoxas de emigrados no testemunho da Ortodoxia junto do mundo ocidental secularizado e industrializado. Estas Igrejas, estabelecidas na Europa e na América e cujos fiéis provêm de origens tanto eslavas como gregas e árabes, vêem-se constrangidas, mais ainda do que as Igrejas - mães estabelecidas nas sociedades tradicionalmente ortodoxas, a distinguir as intuições fundamentais da sua fé das numerosas tradições menores acumuladas pela Igreja ao longo dos séculos, tradições que obscurecem, sobretudo aos olhos do homem ocidental contemporâneo, aquilo de que a Igreja devia dar testemunho. Assim, constata-se nestes últimos anos, sobretudo nos Estados Unidos, o esforço empreendido por estas comunidades com vista a encontrar uma linguagem litúrgica e teológica susceptível de ser compreendida pela segunda geração totalmente integrada na vida do país. Não somente a juventude ortodoxa americana responde favoravelmente a esta adaptação da Igreja o número de seminaristas de S. Vladimir, perto de Nova Iorque, atingiu mais do dobro nestes últimos anos --- mas também um número crescente de convertidos (do protestantismo, do catolicismo ou do agnosticismo) vêm engrossar as fileiras dos ortodoxos americanos. É neste duplo esforço de adaptação ao meio e ao espírito do tempo, que vai de par com uma fidelidade viva a respeito das intuições fundamentais da tradição, que reside o futuro de todas as Igrejas ortodoxas. |