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Contos
e Novelas
Alexandre
Puchkin
- A
Dama de Espadas
Nicolai
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Anton
Tchekhov
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História do meu Pombal
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Primeiro Amor
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Poesia
Anna
Akhmatova
- Separação
- Música
- Os mistérios do ofício
- Através dos espelhos
- Treze versos
- À musa
- Dedicatória
- A noite
- Ele gostava de três coisas
- Aprendi a viver com simplicidade
- Tarde da noite
- A verdadeira ternura não se confunde
- Sonho mais raramente com ele
- Tua casinha branca
- Raramente penso em ti
- O último brinde
- As roseiras florescem
- Tu me inventaste
Serguei
Iessenine
- Cansado
de viver em minha terra natal
- Eu não queria enganar-me
- Carta a minha mãe
Maiakovski
- Nuvem
de Calças
- E então que quereis?
Marina
Tsvetaieva
- Uma
tentativa de ciúmes
- A
chuva bate na minha janela
- Abro
as veias
- A carta
- A vida
Pasternak
- Ser
famoso
- Definição de poesia
Ossip
Mandelshtam
- A
era
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Uma
tentativa de ciúmes
Como é
a tua vida com outra mulher?
Mais simples, não? Uma simples remada!
Na linha do horizonte
a minha memória recuou,
uma ilha flutuante
(no céu, não na águas).
Almas, oh almas! Vós sereis irmãs
não amantes!
Como é
a tua vida com uma mulher
vulgar? Sem o divino?
Agora que destronaste a tua rainha
e tu próprio renunciaste ao trono,
como é
a tua vida? Que fazes?
Hesitas? Como te levantas?
Como consegues, pobre homen,
pagar o preço da trivialidade imortal?
"Chega
de convulsões e palpitações!
Vou alugar uma casa!"
Como vai a tua vida com uma mulher normal,
tu, que foste escolhido por mim!
A comida é mais adequada
e estável? Não te queixas se te fartares...
Como é a tua vida com a tua imagem -
tu, que pisaste o monte Sinai?
Como é
a tua vida com uma estranha,
uma mulher deste mundo? Diz-me - agradável?
A vegonha, como as rédeas de Zeus,
não te fustiga a testa?
Como é a tua vida? A tua saúde?
Passável? Como cantas?
Como enfrentas a consciencia imortal?
Como é a tua vida com um produto
do mercado? O preço é caro, não?
Depois do mármore de Carrara,
como é a tua vida com um bocado
de gesso
estilhaçado? (Deus talhou-a
de um bloco e estilhaçou-o?)
Como é a tua vida com qualquer,
tu, que conheceste Lilith?
O teu apetite satisfaz-se? Agora que a magia
perdeu o seu poder sobre ti,
como é a tua vida
com uma mulher deste mundo?,
sem um sexto sentido? És feliz?
Não? Num poço sem fundo -
como é a tua vida, meu amor?
Pior do que a minha vida com outro homem?

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A
chuva bate na minha janela,
Um operário assobia sobre a sua arte.
Eu era uma cantor de rua
E tu eras o filho de um príncipe
Eu cantava
sobre o cruel destino
E, da balaustrada dourada,
Tu não me deste nenhuma moeda
Mas me lançaste-me antes um sorriso.
Mas o velho
príncipe soube do caso:
Arrancou as condecorações do filho
E ordenou que um criado
Corresse comigo do pátio.
E como eu
me embriaguei essa noite!
Mas, em compensação, nesse mundo ébrio
Eu era filho do príncipe
E tu um cantor de rua!
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Abro
as veias: irreprimível,
Irrecuperável, a vida vaza.
Ponham embaixo vasos e vasilhas!
Todas as vasilhas serão rasas,
Parcos os vasos.
Pelas bordas
- à margem -
Para os veios negros da terra vazia,
Nutriz da vida, irrecuperável,
Irreprimível, vasa a poesia.
(1934)
Tradução
de Augusto de Campos
Nova Antologia Poesia Russa Moderna
Editora Brasiliense/1985

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|
A
Carta
Assim não se esperam cartas.
Assim se espera - a carta.
Pedaço de papel
Com uma borda
De cola. Dentro - uma palavra
Apenas. Isto é tudo.
Assim não se espera o bem.
Assim se espera - o fim:
Salva de soldados,
No peito - três quartos
De chumbo. Céu vermelho.
E só. Isto é tudo.
Felicidade? E a idade?
A flor - floriu.
Quadrado no pátio:
Bocas de fuzil.
(Quadrado da carta:
Tinta, tanto!)
Para o sono da morte
Viver é bastante.
Quadrado da carta.
1923
Tradução
de Augusto de Campos
Nova Antologia Poesia Russa Moderna
Editora Brasiliense/1985

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À
Vida
Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.
Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cavalo
Árabe -
E abre a veia da vida.
1924
Tradução
de Haroldo de Campos
Nova Antologia Poesia Russa Moderna
Editora Brasiliense/1985

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Estou
cansado de viver na minha terra natal,
pensativo nas vastidões de trigo negro,
a minha cabana vou abandonar
e partirei como vagabundo e ladrão.
Seguirei
o dia de caracóis brancos
a procurar miserável abrigo.
E o meu melhor amigo afiará
em mim a navalha tirada da bota.
A
estrada atravessa o prado
amarela de sol e Primavera,
e aquela de quem guardo o nome
em mim, correr-me-á da sua porta.
E
voltarei então à casa paterna,
com a alegria de outro me consolarei,
e com a manga, uma noite verde,
da janela me enforcarei.
Os
salgueiros cinzentos na cerca
inclinarão mais ternamente a cabeça.
E enterrar-me-ão sem me lavarem
ao som dos cães a ladrar.
E
a lua há-de vaguear e vaguear,
deixando cair ramos nos lagos,
e a Rússia como dantes viverá
a dançar e a chorar na cerca.
Serguei
Iessenine
|
Eu
não queria enganar-me,
porém trago uma ansiedade no coração confuso.
Por que é que eu passo por ser um charlatão,
por que é que eu passo por ser um escandaloso?
Nem
biltre fui nem ladrão de estrada,
nem fuzilei inocentes na prisão.
Sou apenas um pobre boêmio
que sorri a todos os que encontra.
Eu
sou um moscovita folgazão e vadio.
por todo o bairro de Tverskáia,
pelas ruelas todos os cães
conhecem o meu andar ligeiro.
Todos
os cavalos roídos
baixam a cabeça quando me encontram.
Sou um bom amigo dos animais,
cada verso meu cura-lhes a alma.
Vou
de chapéu alto mas não para as mulheres,
não bate forte o meu coração por tormentos tolos
-
para acalmar a sua tristeza ele prefere
dar às éguas o ouro das searas.
Entre
os homens amizades não tenho,
e resigno-me a um reino diferente.
Estou pronto a pôr a minha melhor gravata
ao pescoço de qualquer cão vadio.
Agora
já não quero sofrer mais.
E tempo de lavar o coração confuso.
E é por isso que passo por charlatão,
e é por isso que passo por escandaloso.
Serguei
Iessenine
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| CARTA
A MINHA MÃE
Estás
viva ainda, velhota minha?
Eu vivo também. Saudações, saudações!
Que passe sobre a tua cabana
aquela luz da tarde indescritível!
Escrevem-me
que tu, embora o escondas,
te preocupas demasiado comigo,
que vais muita vez até à estrada
com o teu casacão fora de moda.
E a coberto
do azul da noite
muitas vezes imaginas a mesma coisa -
que alguém numa rixa de taberna
me enterrou no coração uma navalha...
Nada acontece,
mãe! Descansa.
Isso é só a tua imaginação.
Eu não sou um bêbado tão inveterado
para morrer sem te ver primeiro.
Como dantes
tão afeiçoado
sonho apenas em escapar
à minha angústia intranqüila
e voltar à nossa pobre casa.
Eu voltarei,
quando estender os ramos
na Primavera o nosso jardim branco.
Só te peço que, de madrugada,
não me acordes como oito anos atrás.
Não
acordes aquele que esgotou todos os sonhos,
não perturbes aquele que não se realizou, -
demasiado cedo o sofrimento e o cansaço
encheram totalmente a minha vida.
E não
me ensines orações. Não é preciso!
Não se pode já voltar atrás.
Tu sozinha me és ajuda e conforto,
Tu sozinha me és inefável luz.
Assim, esquece,
pois, as tuas angústias,
não fiques tão triste por minha causa.
Não vás tantas vezes até à estrada
com o teu casacão fora de moda.
Serguei
Iessenine

|
| E
Então Que Quereis?...
Fiz
ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E
logo
de cada fronteira distante
subiu
um cheiro de pólvora
perseguindo-me
até em casa.
Nestes
últimos vinte anos
nada
de novo há
no
rugir das tempestades.
Não
estamos alegres,
é certo,
mas
também por que razão
haveríamos
de ficar tristes?
O
mar da história
é
agitado.
As
ameaças
e
as guerras
havemos
de atravessá-las,
rompê-las
ao meio,
cortando-as
como
uma quilha corta
as
ondas.
Maiakovski
(1927)

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|
Ser
famoso...
Ser
famoso não é bonito.
Não nos torna mais criativos.
São dispensáveis os arquivos.
Um manuscrito é só um escrito.
O
fim da arte é doar somente.
Não são os louros nem as loas.
Constrange a nós, pobres pessoas,
Estar na boca de toda a gente.
Cumpre
viver sem impostura.
Viver até os últimos passos.
Aprender a amar os espaços
E a ouvir o som da voz futura.
Convém
deixar brancos à beira
Não do papel, mas do destino,
E nesses vãos deixar inscritos
Capítulos da vida inteira.
Apagar-se
no anonimato,
Ocultando nossa passagem
Pela vida, como a paisagem
Oculta a nuvem com recato.
Alguns
seguirão, passo a passo,
As pegadas do teu passar,
Mas tu não deves separar
Teu sucesso do teu fracasso.
Não
deves renunciar a um mínimo
pedaço do teu ser,
Só estar vivo e permanecer
Vivo, e viver até o fim.
Boris
Pasternak
(1956)
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Definição
de Poesia
Um
risco maduro de assobio.
O trincar do gelo comprimido.
A noite, afolha sob o granizo.
Rouxinóis num dueto-desafio.
Um
doce ervilhal abandonado
A dor do universo numa fava.
Fígaro: das estantes e flautas -
Geada no canteiro, tombado.
Tudo
o que para a noite releva
Nas funduras da casa de banho,
Trazer para o jardim uma estrela
Nas palmas úmidas, tiritando.
Mormaço:
como pranchas na água,
Mais raso. Céu de bétulas, turvo.
Se dirá que as estrelas gargalham,
E no entanto o universo está surdo.
Boris
Pasternak
(1917)

|
| A
Era
Minha era, minha fera, quem ousa,
Olhando nos teus olhos, com sangue,
Colar a coluna de tuas vértebras?
Com cimento de sangue - dois séculos -
Que jorra da garganta das coisas?
Treme o parasita, espinha langue,
Filipenso ao umbral de horas novas.
Todo ser
enquanto a vida avança
Deve suportar esta cadeia
Oculta de vértebras. Em torno
Jubila uma onda. E a vida como
Frágil cartilagem de criança
Parte seu ápex: morte da ovelha,
A idade da terra em sua infância.
Junta as
partes nodosas dos dias:
Soa a flauta, e o mundo está liberto,
Soa a flauta, e a vida se recria.
Angústia! A onda do tempo oscila
Batida pelo vento do século.
E a víbora na relva respira
O outo da idade, áurea medida.
Vergônteas
de nova primavera!
Mas a espinha partiu-se da fera,
Bela era lastimável. Era,
Ex-pantera flexível, que volve
Para trás, riso absurdo, e descobre
Dura e dócil, na meada dos rastros,
As pegadas de seus próprios passos.
Ossip Mandelshtam
(1923)

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