Anna Akhmatova

- O canto do último encontro
- Vinte e um. Segunda-feira. É noite.
-
Separação
- Música
- Os mistérios do ofício
- Através dos espelhos
- Treze versos
- À musa
- Dedicatória
- A noite
- Ele gostava de três coisas
- Aprendi a viver com simplicidade
- Tarde da noite
- A verdadeira ternura não se confunde
- Sonho mais raramente com ele
- Tua casinha branca
- Raramente penso em ti
- O último brinde
- As roseiras florescem
- Tu me inventaste

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O CANTO DO ÚLTIMO ENCONTRO

Sentia-me sem forças, gelada,
mas os meus passos eram leves.
Na mão direita tinha a luva
da mão esquerda, ao partir.

Eram realmente tantos degraus?
Eu sabia que eram só três!
O Outono abraçava os plátanos
e murmurava: "Morre comigo!"

É o meu destino
que me enganasse e me traísse.
Eu respondi: "Oh, meu amor!
Eu também.. Contigo morrerei..."

Este é o canto do último encontro.
Olhei para a casa escura,
Só no meu quarto, amarelo e indiferente,
ardia o fogo das velas.

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Vinte e um. Segunda-feira. É noite.
No escuro uns contornos de cidade.
Algum vagabundo escreveu
Que na terra pode haver amor.

E por tédio ou preguiça,
Todos acreditaram e assim vivem:
Esperam encontros, temem adeus
E cantam canções de amor.

Mas a outros revela-se o enigma,
E o silêncio repousará sobre eles....
Descobri isto por acaso
E desde então sinto-me mal.

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SEPARAÇÃO

Nem semanas nem meses - anos
levamos nos separando. Eis, finalmente,
o gelo da liberdade verdadeira
e as cinzentas guirlandas na fachada dos templos.

Não mais traições, não mais enganos,
e não me terás mais de ficar ouvindo até o amanhecer,
enquanto flui o riacho das provas
da minha mais perfeita inocência.

(1940)

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MÚSICA

"Algo de miraculoso arde nela,
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos."

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DE "OS MISTÉRIOS DO OFÍCIO"

"De que servem exércitos de canções
e o encanto das elegias sentimentais?
Para mim, na poesia, tudo tem de ser desmesurado,
e não do jeito como todo mundo faz.

Se vocês soubessem de que lixeira
saem, desavergonhados, os versos,
como dente-de-leão que brota ao pé da cerca,
como a bardana ou o cogumelo.

Um grito que vem do coração, o cheiro fresco de alcatrão,
o bolor oculto na parede...
E, de repente, a poesia soa, calorosa, terna,
Para a minha e tua alegria."

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ATRAVÉS DOS ESPELHOS
(dois poetas e a musa)

"Esta beldade é muito jovem
mas não é deste século.
Não ficamos sozinhos pois - a terceira -
ela nunca nos abandona.
Puxas para ela uma cadeira
e eu, generosamente, divido com ela minhas flores...
O que estamos fazendo - nem nós mesmos sabemos
mas, a cada momento, mais isso nos assusta...
Como quem saiu da prisão,
sabemos algo um do outro,
algo terrível. Estamos num círculo infernal.
Mas talvez isto não sejamos nós."

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TREZE VERSOS

E finalmente pronunciaste a palavra
não como quem se ajoelha,
mas como quem escapa da prisão
e vê o sagrado dossel das bétulas
através do arco-íris do pranto involuntário.
E à tua volta cantou o silêncio
e um sol muito puro clareou a escuridão
e o mundo por um instante transformou-se
e estranhamente mudou o sabor do vinho.
E até eu, que fora destinada
da palavra divina a ser a assassina,
calei-me, quase com devoção,
para poder prolongar esse instante abençoado.

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À MUSA

Quanto, à noite, espero a tua chegada,
a vida me parece suspensa por um fio.
Que importam juventude, glória, liberdade,
quando enfim aparece a hóspede querida
trazendo nas mãos a sua rústica flauta?
Ei-la que vem. Soergue o seu véu,
olha para mim atentamente.
E lhe pergunto: "Foste tu quem a Dante
ditou as páginas do Inferno?". E ela: "Sim, fui eu".

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Dedicatória

Diante dessa dor curvam-se os montes,
O Grande rio já não corre,
Mas são fortes as trancas das prisões,
E atrás delas os "covis de forçados"
E uma angústia mortal.
Para quem sopra a brisa leve,
A quem enternece o pôr-do-sol —
Não sabemos, por toda parte iguais,
Ouvimos só o hediondo estridor das chaves
E os passos pesados dos soldados.
Levantávamos como para a missa da manhã,
Íamos pela cidade embrutecida,
Nos víamos lá, mais exânimes que os mortos,
O sol mais baixo e mais nublado o Nieva,
Mas a esperança ainda cantando ao longe.
A sentença... E as lágrimas irrompem,
De todos já afastada,
A vida arrancada do coração aos gritos.
Derrubada de costas, brutalmente,
Mas ela anda... Cambaleia... Só...
Onde estão as amigas prisioneiras
Dos meus dois anos de inferno?
O que elas vêem na tormenta siberiana,
O que tremeluz no halo da lua?
A elas, meu adeus de despedida.

(Março 1940.)

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A noite

Naqueles anos fabulosos...
Tiútchev

Apertei as mãos sob o xale escuro...
“Por que estás tão pálida?”
- Porque hoje lhe dei a beber amargura
até que ele foi embora daqui embriagado.

Posso acaso esquecê-lo? Saiu daqui cambaleando,
sua boca torcendo-se dolorosamente...
Desci correndo, sem nem me encostar no corrimão,
corri atrás dele até o portão.

Angustiada gritei: “Tudo não passou
de uma brincadeira. Se fores embora, morro”.

Sorriu docemente e, com um muxoxo terrível,
disse-me: “Não fique no vento”.

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Ele gostava de três coisas neste mundo:

o coro das vésperas, pavões brancos
e mapas da América já bem gastos.

Não gostava de crianças chorando,
nem de chá com geléia de framboesa
e nem de mulheres histéricas

...e eu era a mulher dele.

9/11/1911
Kiev

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Aprendi a viver com simplicidade, com juízo,
a olhar o céu, a fazer minhas orações,
a passear sozinha até a noite,
até ter esgotado esta angústia inútil.

Enquanto no penhasco murmuram as bardanas
e declina o alaranjado cacho da sorveira,
componho versos bem alegres
sobre a vida caduca, caduca e belíssima.

Volto para casa. Vem lamber a minha mão
o gato peludo, que ronrona docemente,
e um fogo resplandecente brilha
no topo da serraria, à beira do lago.

Só de vez em quando o silêncio é interrompido
pelo grito da cegonha pousando no telhado.

Se vieres bater à minha porta,
é bem possível que eu sequer te ouça.

1912

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Tarde da noite, em minha mesinha,
a página está irremediavelmente branca.

As mimosas cheiram a Nice e a mormaço;
à luz da lua voa um grande pássaro.

Enquanto faço as tranças para ir deitar –
como se amanhã ainda fosse usar tranças –
olhos, sem suspirar pela janela,
para o mar e as suas brancas dunas.

Mas que poder tem esse homem
que nem sequer me pede ternura...

Mal posso erguer as pálpebras cansadas
quando ele pronuncia o meu nome.

Verão de 1913

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A verdadeira ternura não se confunde
com coisa alguma. É silenciosa.

Em vão envolves com cuidado
os meus ombros e meu colo nesta estola.

Em vão palavras carinhosas
dizes sobre o nosso primeiro amor.

Como conheço bem esses insistentes
e insatisfeitos olhares teus.

dezembro de 1913
Tsárkoie Seló

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Sonho mais raramente com ele, graças a Deus,
já não imagino que o vejo em toda parte.

A névoa encobre a estrada embranquecida,
as sombras leves já fogem sobre a água.

O dia inteiro os sinos não pararam
de tocar sobre os campos bem arados.

Ainda mais altos são os do mosteiro
de São João que eu vejo lá longe.

No campo, vou colhendo as violetas
que ainda outro dia floresceram
e fico olhando aqueles dois monges
que passeiam pela antiga muralha.

Diante de meus olhos, que eram cegos,
ressurge concreto um mundo inteligível e familiar.

O Deus dos Céus cicatrizou minha alma
com a gélida calma da ausência do amor.

1912
Kiev

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Tua casinha branca, teu tranqüilo jardim abandonarei.
Minha vida passará a ser solitária e radiosa.

Mas a ti, a ti eu celebrarei em meus versos,
como mulher alguma jamais fez.

Tu, querido, relembrarás a tua amada
no paraíso que criaste para os olhos dela.

Enquanto isso, eu comercio esses tesouros:
teu amor, tua ternura, vou vendê-los.

1913
Tsárkoie Seló

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Raramente penso em ti.
Teu destino pouco me interessa.

Mas de minha alma ainda não se apagou
o brevíssimo encontro que tivemos.

Evito, de propósito, tua casinha vermelha,
tua casinha vermelha junto ao rio lamacento;
mas bem sei com que amargura
perturbo a tua ensolarada quietude.

Embora não te tenhas inclinado sobre mim
suplicando-me que te amasse,
embora não tenhas imortalizado
o meu desejo em versos dourados,
secretamente lanço encantamentos para o futuro,
sempre que as noites são de um azul profundo,
e tenho a premonição de um segundo encontro,
um inevitável segundo encontro contigo.

1913

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O ÚLTIMO BRINDE

Bebo à casa arruinada,
às dores da minha vida,
à solidão, lado a lado
e a ti também eu bebo –
aos lábios que me mentiram,
ao frio mortal nos olhos,
ao mundo rude e brutal
e a Deus que não nos salvou

27/03/1934

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DE “AS ROSEIRAS FLORESCEM”

O mistério de um não-encontro
tem desolados triunfos:
frases não ditas,
palavras silenciadas,
olhares que não se cruzaram

nem souberam onde repousar –
só as lágrimas alegram
por poderem livremente correr.

um roseiral perto de Moscou
- ai meu Deus! - teve tanto
a ver com isso...

E a tudo isso chamaremos
de amor imortal.

1956

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Tu me inventaste. Não há um ser assim,
e nem poderia um ser assim haver.
O médico não cura, o poeta não consola –

uma aparição te assombra dia e noite.
Nós nos encontramos num ano inacreditável
quando as forças do mundo se esgotavam;
tudo estava de luto, murcho pelo infortúnio
e só os túmulos mantinham-se frescos.

Sem as luzes da rua, o Neva era um breu
e na espessa noite eu estava emparedada...
Foi então que a minha voz te chamou.

Por que ela o fez – ainda não entendo.

Mas vieste a mim, guiado pela estrela,
naquele outono trágico, entrando
naquela casa irremediavelmente arruinada,
de onde fugira um rebanho de versos calcinados.

18/8/1956

Starki

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