Dama de Espadas
Alexandre Puchkin

“Dama de espadas significa malevolência secreta.”
O cartomante moderno.

I

Quando lá fora a bruma
empanava as vidraças, eles se reuniram.
Era de ver-se, Deus os tenha em seu seio! obstinando-se em suas paradas
e dobrando-as.
E ganhar
e marcar o logo
a giz.
E assim, pelos tempos sombrios, eram vistos a absorver-se
em graves negócios.

Jogara-se em casa de Narumov, oficial de Cavalaria. Sem que ninguém o percebesse, escoara-se a longa noite de inverno. E somente às cinco horas da manhã foi servida a ceia. Os que haviam ganho comiam com apetite. Os outros olhavam distraidamente seus pratos ainda vazios. Entre-tanto, graças ao champanha, animou-se a Conversação e, dentro em pouco, todos nela tomaram parte.
- Como se foi você hoje, Surine? -perguntou o dono da casa.
- Perdi, como sempre. Em verdade, não tenho sorte. Jamais modifico o meu jogo, jamais dobro a parada. Nada me anima. Por isso perco sempre.
- De verdade? Nem uma vez você pro-curou variar o jogo? Nem uma? Tanta constância me perturba.
- E que dizer de Hermann? - perguntou um dos presentes, designando um jovem oficial de Engenharia. Durante toda a sua vida esse rapaz jamais fez uma parada ou sequer tocou numa carta. Entretanto, fica aqui conosco até as cinco horas da manhã, vendo-nos jogar.
- O jogo me interessa muito - disse Hermann - mas não posso arriscar O necessário na esperança de obter o supérfluo.
- Hermann alemão e econômico e isso tudo - disse Tomski. - Mas o que eu não compreendo em absoluto o caso de minha avó, a condessa Ana Fedorovna.
- Como, por que? - perguntaram os convivas.
- Não posso atinar com as razões que a impedem de jogar.
- Vejamos - disse Narumov. - Que há de extraordinário em que não jogue uma mulher de oitenta anos?
- Nunca ouviram nada a respeito?
- Nada, absolutamente.
- Então, ouçam. Mas saibam antes de tudo que há cerca de sessenta anos minha avó esteve em Paris, onde fez furor. Era seguida por uma verdadeira multidão. Todos desejavam conhecer a “Vênus Moscovita”. Richelieu, que lhe fez a corte, segundo ela conta, esteve a ponto de estourar Os miolos, desesperado ante a sua resistência. Naquele tempo as mulheres jogavam a banca. Certa noite, na Corte. Jogando sob palavra contra o duque d’Or1éans, minha avó perdeu uma quantia avultada. Ao voltar para casa, enquanto se libertava de seus adornos e de suas saias de roda, informou meu avô da dívida contraída e ordenou-lhe que a mandasse pagar. Era meu avô quem administrava a fortuna da esposa. E ele a temia coma ao próprio fogo. Entretanto, diante de uma perda tão grande perdeu as estribeiras. Pôs-se a fazer contas e demonstrou a minha avó que, em seis meses, já haviam gasto meio mi1hão. Acrescentou que na França eles não dispunham de suas aldeias de Moscou e Saratov. Enfim, recusou-se a pagar. Então minha avó a esbofeteou e, além de tudo, dormiu nessa noite em quarto separado do marido.
Na manhã seguinte mandou chamá-lo. Contava com os bons efeitos do castigo matrimonial que lhe impusera. Pela primeira vez em sua vida condescendeu em apresentar razões, em dar explicações. Nada conseguiu... Em vão se esforçou por explicar-lhe que existem dívidas e dívidas e que não era possível proceder com um príncipe como se procede-ria com um carroceiro. Meu avô não atendeu, recusou-se terminantemente a atender. "Não e não.” Isso era tudo. Minha avó já não sabia o que fazer. Entretanto, ela conhecia intima-mente um homem muito singular. Com certeza já ouviram falar do conde de Saint-Germain, do qual se contam tantas maravilhas. Sabem que ele se fazia passar pelo Judeu Errante, por descobridor da pedra filosofal e inventor do elixir de longa vida. Muitos o consideravam um charlatão e Casanova, em suas Memórias, afirma que era um espião. Fosse como fosse, e apesar do mistério de que se cercava, Saint-Germain mantinha uma conduta bastante respeitável e se mostrava muito gentil em sociedade, Minha avó que ainda o ama com loucura, não admite que se lhe faça qualquer referência menos respeito-sa. Ela sabia que a conde de Saint-Germain podia dispor de somas enormes e resolveu dirigir-se a ele. Escreveu-lhe um bilhete, pedindo-lhe que passasse mais tarde em sua casa. O velho original acorreu ao chamado e encontrou-a cheia de desespero. Descreveu-lhe com as cores mais sombrias a conduta bárbara de seu marido e, para terminar, disse que depositava na sua amizade e bondade todas as suas esperanças. Saint-Germain pôs-se a refletir:
- Eu vos emprestaria de bom grado essa quantia - disse ele - mas sei que não teríeis descanso enquanto não ma pagásseis. E não desejo, em nenhuma hipótese, aumentar os vossos aborrecimentos. Proponho outra solução: ganhar de novo o dinheiro.
- Mas, meu caro conde - respondeu minha avó - já vos disse que não dispomos de mais nenhum dinheiro.
- Ele não é absolutamente necessário - replicou Saint-Germain. - Dignai-vos apenas escutar-me...
E lhe revelou um segredo pelo qual qualquer de nós pagaria muito caro...
Os jovens jogadores redobraram de atenção. Tomski acendeu o seu cachimbo, tirou uma fumaça e prosseguiu:
- Na mesma noite, minha avó foi a Versalhes, ao “jogo da rainha”. Bancava o duque d’Or1éans. Minha avó desculpou-se negligentemente de não liquidar logo o seu débito, contando, para se justificar, não sei que pequena história e pôs-se incontinenti a apontar o jogo. Escolheu três cartas e nelas apostou, uma após outra, dobrando sempre a parada. As três cartas ganharam e minha avó saiu-se gloriosamente.
- Puro acaso! - disse um dos convivas.
- Não o creio! - protestou Hermann.
- As cartas poderiam estar marcadas -disse um terceiro.
- Não o creio - replicou Tomski gravemente.
- Então - falou Narumov - você possui uma avó que adivinha por três vezes seguidas a carta que vai ganhar e ainda não procurou obter esse segredo cabalístico?
- Isso não seria fácil - respondeu Tomski. - Minha avó tinha quatro filhos, incluindo meu pai, todos jogadores inveterados. Pois bem, ela não revelou a seu segredo a nenhum deles, embora isso pudesse ser de grande utilidade para eles e para mim também. Mas eis o que me contou, sob palavra de honra, o meu tio, o conde Ivan Ilitch: o falecido Tchaplitzki - aquele que morreu na miséria depois de haver esbanjado milhões -na sua juventude num dia em que jogava contra Zoritch, se bem me recordo, perdeu cerca de trezentos mu rublos. Ficou desesperado. Minha avó, que sempre se mostrava muito severa com as loucuras da mocidade, sem que eu saiba porque, apiedou-se de Tchaplitzki e indicou-lhe três cartas, nas quais ele deveria jogar, uma após outra, dando-lhe porém a sua palavra de que jamais voltaria a jogar. Tchaplitzki voltou a casa do seu vence-
dor. Jogaram. Tchaplitzki parou cinqüenta mil rublos na primeira carta e ganhou. Dobrou a parada e ganhou de novo. Do mesmo modo ganhou com a terceira carta. No fim das contas, pôde ressarcir o prejuízo e obter ainda algum lucro...
Mas já são seis horas. Hora de nos deitarmos.
Com efeito o dia começava a clarear. Os rapazes esvaziaram seus copos e separaram--se.

II

- Il paraît que Monsieur est décidément pour les suivantes.
- Que voulez-vous, Madame? elles sont plus fraîches.
Conversação mundana.

A velha condessa de*** estava no seu quarto de vestir, sentada ante um espelho. Três criadas a cercavam. Uma tinha na mão um pote de carmim, outra uma caixa de grampos para cabelo, e a terceira uma coifa adornada de fitas vermelhas. A condessa já não tinha nenhuma pretensão de beleza, que já murchara há muito. Entretanto, conservava os hábitos da mocidade, seguia a rigor as modas do século anterior e dedicava à toilette o mesmo cuidado e tempo de há sessenta anos. Uma jovem, sua pupila, bordava no vão da janela.
- Bom dia, vovó - disse ao entrar um jovem oficial. - “Bonjour, mademoiselle Li-se. Grand’ maman”, tenho um pedido a fazer-lhe.
- Que é, Paulo?
- Permita-me apresentar-lhe um de meus amigos e convida-lo para o seu baile de sexta-feira.
- Convide-o diretamente para o baile e apresente-mo então. Esteve você ontem em casa de***?
- Decerto. Estava muito animado. Dancei até as cinco horas. Eletzkaïa estava arrebatadora.
- Ei, meu caro. Que lhe encontra você de tão belo? não se pode comparar sua avó, a princesa Daria Petrovna. A propósito, suponho que a princesa deve estar bem velha.
- Velha! Como! - respondeu estouvadamente Tomski. - Há já sete anos que ela morreu.
Erguendo a cabeça, a jovem fez um sinal ao oficial. Então ele se recordou que se devia ocultar à velha condessa a morte de pessoas de sua idade. Mordeu os lábios. Mas a condessa recebeu a notícia, que ouvia pela primeira vez, com a mais completa indiferença.
- Morta! - disse ela. - Não o sabia. Fomos escolhidas juntas para damas de honra. E quando fomos apresentadas à Impera-triz...
E, pela centésima vez, desfiou a mesma história.
- Vamos, Paulo - disse em seguida -ajude-me a levantar-me. Lisanka, onde está a minha tabaqueira?
E a condessa, acompanhada das três criadas de quarto, passou para trás do biombo, a fim de terminar a sua toilette.
Tomski ficou a sós com a jovem.
- Quem deseja o senhor apresentar a condessa? - perguntou em voz baixa Lisavéta Ivanovna.
- Narumov. Conhece-o?
- Não. Militar?
- É.
- Do corpo de Engenharia?
- Não, de Cavalaria. Que lhe fez supor que fosse de Engenharia?
A jovem sorriu e não respondeu.
- Paulo - gritou a condessa de trás do biombo - mande-me um romance novo. não importa qual, contanto que não seja do gosto moderno.
- Que entende por isso, vovó?
- Quero um romance onde o herói não estrangule nem o pai, nem a mãe, e onde não haja afogados. Tenho um medo atroz dos afogados.
- Não se escrevem mais romances desse gênero. não quer um romance russo?
- Hum! Há romances russos? Mande-me um, meu caro, mande-me um, peço-lhe.
- Até logo, vovó, tenho pressa. Até logo, Lisavéta Ivanovna. Por que desejava que Narumov fosse oficial de Engenharia?
E Tomski se foi.
Ficando s6, Lisavéta Ivanovna deixou o seu trabalho e pôs-se a olhar pela janela. Logo, do outro lado da rua, dobrando a casa da esquina, surgiu um jovem oficial.
Lisavéta ivanovna corou. Retomando o trabalho, baixou a cabeça sobre o bordado. Nesse momento, voltou a condessa já completamente vestida.
- Lisanka - disse ela - mande atrelar a carruagem. Vamos dar um passeio.
A jovem levantou-se e começou a dobrar a sua costura.
- Então, que faz você? Está surda? -gritou a condessa. - Mande atrelar a carruagem, depressa.
- Já vou - respondeu a jovem e correu para o vestíbulo.
Nesse momento, entrou um criado e entregou à condessa alguns livros enviados pelo príncipe Paulo Alexandrovitch.
- Muito bem. Agradeça-lhe, Lisanka! Para onde corre você?
- Vou vestir-me.
- Ainda cedo. Sente-se aí. Abra o primeiro volume e leia para eu ouvir.
A jovem tomou o livro e leu algumas linhas.
- Mais alto! - disse a condessa. -Que tem você, pequena, está rouca? Olhe, aproxime o tamborete pequeno. Mais... Chega!...
Lisavéta Ivanovna lê mais duas páginas. A condessa boceja.
- Jogue fora esse livro - disse ela. Como são enfadonhos. Devolva tudo isso ao príncipe Paulo e agradeça-lhe... E a carruagem? Que aconteceu com a carruagem?
- Está pronta - disse Lisavéta Ivanovna, olhando pela janela.
- Por que não está você vestida? Sempre tenho que esperar por você. Isso é insuportável, minha cara!
Lisa correu ao seu quarto. não havia dois minutos que ali chegara e a condessa já to-cava a campainha com toda força. Três cria-dos acorreram por uma porta e um camareiro pela outra.
- Estou cansada de chamar e ninguém atende! - gritou a condessa. - preciso apressar Lisavéta Ivanovna.
A jovem surgiu, já de chapéu e manteau.
- Até que enfim você veio! - disse a condessa. - Mas, por que tanto apuro? Em que está pensando? Quem espera você seduzir?... Como está o tempo? Venta, não?
- Não, excelência - disse o camareiro.
- Faz bom tempo.
- Você responde sempre ao acaso. Abra os postigos. Tenho razão. Está ventando. Um vento frio. Desatrelem a carruagem. Lisanka, não vamos mais sair. não adiantou você se enfeitar tanto!
“Esta é a minha vida!" - pensa Lisavéta Ivanovna. Em verdade, era ela uma criatura bastante infeliz. "É amargo o pão de outrem e difíceis de subir os degraus da porta alheia~" , disse Dante. E quem melhor pode conhecer a amargura da dependência do que a pupila pobre de uma velha mulher da nobreza? A condessa não era de todo má mas tinha todos os caprichos de uma mulher corrompida pelos sucessos mundanos. Era avarenta e se comprazia em um egoísmo frio, próprio dos velhos que deixaram de amar e são hostis ao presente. Tomava parte em todas as diversões frívolas da vida mundana, comparecia a todas as festas e, lá, vestida e enfeitada à moda antiga, permanecia sentada a um canto, figura obrigatória e grotesca dos salões de baile. Ao entrar, os convidados se aproximavam para saudá-la profundamente, como cumprindo um rito. Depois, ninguém mais se preocupava com ela. Em sua casa, onde toda a cidade era recebida, ela observava uma rigorosa etiqueta e jamais reconhecia qualquer dos visitantes. Seus numerosos criados, engordados e envelhecidos em suas antecâmaras, sentiam-se à vontade na casa da velha moribunda, por-fiando cada um em depená-la melhor. Nessa casa, Lisavéta Ivanovna arrastava uma vida de mártir. Servia o chá e logo era repreendida pelo desperdício de açúcar. Se lia em voz alta qualquer romance, a condessa a responsabilizava por todos os defeitos do autor. Se acompanhava a condessa a passeio, a ela cabia a culpa do mau tempo e do mau calçamento das ruas. Os ordenados combinados jamais lhe eram integralmente pagos, embora se lhe exigisse vestir-se como todo mundo, isto é, como poucas pessoas. Na sociedade, a sua posição era das mais humilhantes. Todos a conheciam, mas ninguém a distinguia. Nos bailes, só dançava quando faltava um par, e as senhoras lhe tomavam o braço toda vez que precisavam deixar o salão para arranjar algum desalinho do vestuário. Ela, em seu amor próprio, sentia vivamente a inferioridade de sua situação e lançava em torno olhares impacientes, à procura de um libertador. Mas os jovens, prudentes em sua leviandade vaidosa, não a honravam sequer com um olhar, embora Lisavéta Ivanovna fosse cem vezes mais encantadora do que as jovens belezas frias e orgulhosas, em torno das quais borboleteavam. Quantas vezes, deixando os ricos e fastidiosos salões, havia ela chorado em seu pequeno quarto, mobiliado apenas com uma cama de madeira pintada, um biombo de papel, um pequeno espelho, e onde uma vela de sebo, enfiada em um castiçal de cobre, esparzia uma claridade tênue.
Certa vez - dois dias após o serão descrito no começo desta história, e uma semana antes da cena que vimos de esboçar -, Lisavéta Ivanovna estava sentada perto da janela, ante o seu trabalho. Olhando casualmente para a rua, percebeu um jovem oficial de Engenharia, imóvel, olhos fixos sobre a janela. Baixou a cabeça e retomou o seu trabalho. Ao fim de cinco minutos, olhou novamente. O jovem oficial estava no mesmo lugar. Não tendo o hábito de namorar com os oficiais que passavam sob sua janela, Lisavéta Ivanovna voltou ao trabalho e levou cerca de duas horas sem levantar a vista da costura. O jantar foi servido. A jovem levantou-se e começou a arrumar o seu bordado. Involuntariamente olhou para a rua. E viu ainda o oficial. Isto pareceu-lhe estranho. Após o jantar, aproximou-se da janela com certa inquietação. Mas o oficial já não estava lá. E ela deixou de pensar nele.
Dois dias depois, ao sair com a condessa, no momento em que subia para a carruagem, tomou a vê-lo. Estava perto da porta, a face sumida na gola do capote de peles, os olhos negros cintilando sob a pala do boné. Amedrontada sem saber por que, Lisavéta Ivanovna acomodou-se na carruagem, presa de estranha perturbação.
Ao voltar para casa, correu à janela. O oficial estava em seu posto, fixando o olhar sobre ela. A jovem recuou, fremindo de curiosidade e agitada por um sentimento inteira-mente novo para ela.
Desde então, não houve um só dia em que o jovem deixasse de surgir à hora habitual sob as janelas. Mensagens mudas estabeleceram-se entre os dois. Assentada em seu lugar, trabalhando, ela pressentia a sua aproximação, levantava a cabeça e fitava-o cada vez mais longamente. O jovem parecia agradecer-lhe. Ela notava, com esse olhar agudo da juventude, que um vivo rubor cobria a face pálida do oficial, cada vez que seus olhos se encontravam. Ao fim de uma semana ela sorriu-lhe.
Quando Tomski pediu à condessa per-missão para lhe apresentar um amigo, o coração da pobre rapariga bateu mais fortemente. Mas, ao saber que Narumov pertencia à Cavalaria e não à Engenharia, censurou-se por haver deixado transparecer o seu segredo a pessoa tão leviana.
Hermann era filho de um alemão longo tempo estabelecido na Rússia e que lhe havia deixado uma pequena fortuna. Firmemente convencido da necessidade de garantir a sua independência, Hermann não tocava sequer em seus rendimentos. Vivia do seu soldo de oficial e se recusava qualquer extravagância. Além disso, era dissimulado, ambicioso, e os seus camaradas só muito raramente encontravam oportunidade para zombar de sua excessiva economia. Possuindo paixões e ar-dente imaginação, sua firmeza o preservara até então de erros habituais da juventude. Jogador por temperamento, jamais tocara em uma carta, por julgar que a sua situação não lhe permitia (como ele próprio afirmava) "ar-riscar o necessário na esperança de obter o supérfluo”. Entretanto, passava noites inteiras diante do pano verde, acompanhando com angústia febril as diversas fases do jogo. A história das três cartas agitou violentamente a sua imaginação e, durante toda a noite, não lhe saiu do pensamento.
“Se por acaso - pensava ele na tarde seguinte, vagando pelas ruas de São Petersburgo - a velha condessa me revelasse o seu segredo! Se ela me indicasse as três cartas ganhadoras! Por que não tentar a sorte? Far-me-ei apresentar, conquistarei a sua confiança, se necessário tornar-me-ei seu amante. Mas, para tudo isso, preciso de tempo. Ora, com oitenta e sete anos ela pode morrer dentro de uma semana, de dois dias... Maldita história. Poder-se-á dar-lhe crédito? Não, a economia, a moderação, o trabalho, eis as minhas três cartas ganhadoras. Elas duplicarão, multiplicarão a minha fortuna, dar-me-ão independência e tranqüilidade.”
Assim raciocinando, surpreendeu-se em uma das principais ruas de São Petersburgo, diante de um edifício de arquitetura antiga. A rua estava cheia de equipagens. As carruagens desfilavam e se detinham diante de uma
fachada iluminada. A cada instante divisava--se, ou o pequeno pé elegante de uma dama, ou uma bota com esporas, ou meias raiadas, os sapatos de um diplomata. Peliças e manteaux passavam rapidamente diante de um solene guarda-portão. Hermann se deteve.
- A quem pertence esta casa? - perguntou a um guarda.
- À condessa de***.
Hermann estremeceu. A estranha história apresentou-se de novo à sua mente. E pôs-se a rondar diante da casa, pensando na condessa e no seu misterioso poder. Voltando muito tarde ao seu modesto domicílio, custou-lhe muito conciliar o sono, e logo que adormeceu sonhou com cartas, panos verdes, maços de cédulas e montes de moedas. E jogava uma carta após outra. Dobrando as paradas, ganhava na certa, sem cessar, amontoando moedas de ouro e abarrotando os bolsos de cédulas. Acordou tarde, desolado com o desvanecimento de sua fortuna fantástica. E recomeçou a vagar pela cidade.
Pouco depois encontrou-se outra vez diante da casa da condessa de***. Uma força desconhecida parecia atraí-lo. Deteve-se e começou a olhar as janelas. Atrás de uma vidraça percebeu uma cabeça jovem de cabelos negros, sem dúvida inclinada sobre um livro ou sobre qualquer trabalho. A cabeça ergueu-se e Hermann divisou uma face fresca e dois olhos negros.
Esse instante decidiu a sua sorte.

III

Vous m’écrivez, mon ange, des lettres de quatre
pages plus vite que je puis les lire.

Lisavéta Ivanovna mal teve tempo de tirar o manteau e o chapéu e já a condessa mandava procurá-la, para que a carruagem fosse novamente atrelada. Logo depois, as duas preparavam-se para subir ao carro. No momento em que dois criados içavam penosamente a velha para o estribo, Lisavéta Ivanovna percebeu o seu oficial ao lado da carruagem. Sentiu que ele tomava a sua mão. Antes que se pudesse refazer da surpresa, o jovem havia desaparecido, deixando-lhe um bilhete na mão. Dissimulou-o sob a luva e, durante todo o passeio, nada viu nem ouviu. Na carruagem, era costume da condessa fazer perguntas incessantes. “Quem passou? Como se chama esta ponte? Que está escrito naquela tabuleta?” Dessa vez, Lisavéta Ivanovna respondeu a tudo sem o menor sentido e isto encolerizou a condessa.
- Que se passa hoje com você, peque-na? Enlouqueceu? Não me ouve ou não compreende? Graças a Deus ainda não estou caduca nem sou doida.
Lisavéta ivanovna não a escutava.
De volta a casa, correu para o seu quarto, tirou a carta da luva. não estava lacrada e a jovem leu-a de um fôlego. Era uma declaração de amor. Terna, respeitosa e, palavra por palavra, traduzida de um romance alemão. Mas Lisavéta Ivanovna não sabia alemão e ficou muito contente. Entretanto, aquela carta por ela aceita perturbava-a ao extremo. Pela primeira vez em sua vida ela iniciava uma aventura com um jovem. A audácia do oficial espantava-a. Censurava-se pela sua conduta imprudente e não sabia que resolução tomar. Deixar de permanecer à janela e, por uma fingida indiferença, desencorajar o oficial de seus propósitos? Devolver-lhe a carta? Responder-lhe lacônica e friamente? Não possuía nem parentes nem amigos a quem pedir conselhos. Decidiu responder. Sentou-se diante de sua mesa, tomou pena e papel e pôs-se a refletir. Mais de uma vez começou a carta e mais de uma vez a rasgou. Os seus termos lhe pareciam ora muito complacentes ora muito severos. Afinal conseguiu escrever as seguintes linhas que a satisfizeram:
“Estou certa de que as vossas intenções são as de um homem honesto e que não desejaríeis ofender-me com uma conduta irrefletida. Entretanto, as nossas relações não devem começar assim. Junto devolvo a vossa carta e espero que, doravante, não mais tenha a lamentar uma falta de consideração que absolutamente não mereci.”
No dia seguinte, logo que viu Hermann, deixou a costura, atravessou o salão, abriu os postigos e lançou a carta à rua, confiando na presteza do jovem oficial. Hermann correu, apanhou o bilhete e entrou numa confeitaria para o ler. Ao rasgar o invólucro, encontrou a sua carta e a resposta de Lisavéta Ivanovna. Era o que ele esperava e voltou para casa inteiramente absorvido pela sua aventura.
Três dias depois, uma jovem e esperta costureira levou um bilhete a Lisavéta Ivanovna. Inquieta, julgando que fosse algum pedido de dinheiro, ela o abriu. Mas reconhecendo a letra de Hermann, disse:
- Está enganada, senhorita, este bilhete não para mim.
- Para a senhora, sim - respondeu maliciosamente a rapariga, sem esconder um sorriso. - Queira ler.
Lisavéta Ivanovna leu rapidamente o bilhete. Hermann exigia um encontro.
- Isso insuportável! - disse ela, chocada com a audácia do pedido e do procedi-mento.
E rasgou o bilhete em mil pedaços.
- Se a carta não era para a senhora, por que a rasgou? - disse a modista. - Eu deveria devolvê-la a quem a enviou.
- Peço-lhe perdão - disse Lisavéta Ivanovna muito confusa. - Não me traga mais nenhuma carta, e quanto àquele que lhe deu a incumbência, diga-lhe que deveria envergonhar-se do seu procedimento.
Mas Hermann não sossegou. Todos os dias Lisavéta Ivanovna recebia uma carta, enviada de uma maneira ou de outra. Não eram mais traduzidas do alemão. Hermann as escrevia inspirado por uma paixão violenta e usava uma linguagem que era bem a sua. Suas cartas refletiam toda a obstinação de seus desejos e a desordem de sua imaginação desregrada. Lisavéta Ivanovna não pensava mais em devolver-lhe as cartas. Sentia-se embriagada. Passou a responder e cada dia as respostas se tornavam mais longas e mais ter-nas. Afinal atirou-lhe pela janela a seguinte missiva:

“Hoje haverá baile em casa do embaixador***. A condessa irá. Devemos lá ficar até cerca de duas horas. Esta é a ocasião de nos vermos a sós. Logo que a condessa sair, com certeza os criados irão passear. Fica apenas o guarda-portão, no vestíbulo, mas ele tem o hábito de abandonar o seu posto. Venha às onze e meia. Suba diretamente a escada. Se encontrar alguém na antecâmara, pergunte se a condessa está em casa. Responder-lhe-ão que ela saiu, e, então, nada ha-verá a fazer. Deverá retirar-se. Mas o mais provável é não encontrar ninguém. Todas as criadas se reúnem no mesmo quarto. Ao sair do vestíbulo, dirija-se à esquerda e siga sempre em frente, até o quarto de dormir da condessa. Atrás do biombo encontrará duas pequenas por-tas. A da direita dá acesso a um gabinete desocupado, onde a condessa jamais penetra. A da esquerda abre para um corredor, no fim do qual há uma escada de caracol que leva ao meu quarto.”

Enquanto aguardava a hora marcada, Hermann fremia como um tigre. Desde as dez horas se achava ele em frente à casa da condessa. O tempo estava medonho. O vento uivava e uma neve meio derretida caía em grandes flocos. Os lampiões espalhavam débil claridade. De quando em quando, passava um trenó puxado por uma pileca héctica. O cocheiro caçava algum transeunte retardatário. Vestido apenas com o seu uniforme, imóvel, Hermann não sentia nem o vento nem a neve. Por fim, chegou a carruagem da condessa. Hermann viu sair, apoiada em dois lacaios, a velha toda curvada, enrolada em uma peliça de zibelina. Logo após, coberta com um leve manteau, os cabelos adornados de flores naturais, saiu rapidamente Lisavéta Ivanovna. O cocheiro estalou o chicote e a carruagem rodou surdamente sobre a neve fofa. O guarda-portão tornou a fechar a porta da entrada. Extinguiram-se as luzes das janelas. Hermann rondava diante da casa deserta. Aproximou-se de um lampião e consultou o relógio. Eram onze horas e vinte minutos. Imóvel sob o lampião, olhos fixos nos ponteiros, contou os minutos.
Exatamente às onze e meia, Hermann subiu os degraus da entrada e penetrou no vestíbulo brilhantemente iluminado. Não viu o guarda-portão. Subiu rapidamente a escada, abriu a porta da antecâmara e viu, sob uma lâmpada, um criado que dormia comodamente em uma poltrona empoeirada. Com passos seguros e rápidos, Hermann passou diante dele. O refeitório e o salão estavam às escuras. A lâmpada da antecâmara esparzia apenas uma vaga claridade. Hermann entrou no quarto da condessa. Uma lamparina de ouro ardia diante de velhos ícones. Poltronas forradas de seda desbotada, sofás de doura-dos foscos e guarnecidos de coxins de penas estavam arrumados com insípida simetria ao longo das paredes forradas de tapeçarias da China. Viam-se dois retratos pintados em Pa-ris por Madame Lebrun. Um deles representava um homem de cerca de quarenta anos, gordo e corado, envergando uma casaca ver-de, sobre a qual luzia uma condecoração. O segundo retrato era de uma mulher jovem e
bela, de nariz aquilino, uma rosa nos cabelos empoados, levantados sobre as têmporas. Por todos os cantos viam-se pastores de porcelana, pêndulas do famoso Leroy, pequenas caixas, leques, e uma legião de objetos de uso das damas, ninharias do fim do último século, contemporâneas dos salões de Montgolfier e do fluido de Mesmer.
Hermann passou para trás do biombo. Lá havia um leito de ferro. À direita, viu a porta do gabinete desocupado; à esquerda, a do corredor. Abriu esta última e distinguiu a estreita escada de caracol que conduzia ao quarto da jovem pupila. Mas, voltando sobre os seus próprios passos, entrou no gabinete escuro. O tempo escoou-se lentamente. O silêncio era absoluto. A pêndula do salão bateu meia- noite, todas as outras pêndulas da casa, uma após outra, bateram meia-noite. Depois tudo imergiu no silêncio. De pé, Hermann encostava-se a uma estufa apagada. Estava calmo, seu coração pulsava regularmente, como o de um homem que tomou uma decisão desesperada mas irrevogável. Soou uma hora e depois as duas. Afinal ouviu o rolar longínquo de um carro. Então, apesar de tu-do, sentiu-se invadido pela emoção. O carro se aproximou e parou. Ouviu o ruído do es-tribo que se baixava, depois uma agitação em toda a casa. Acorreram os criados, escutou o rumor de vozes, todos os quartos se ilumina-ram. Três velhas criadas irromperam no quarto de dormir e a condessa, mais morta do que viva, entrou e deixou-se cair em uma poltrona. Hermann espiava por uma fenda. Lisavéta Ivanovna passou muito perto dele e ele ouviu os seus passos apressados sobre os degraus da escada de caracol. Algo semelhante ao remorso agitou seu coração, dissipando-se em seguida. Fez-se de pedra.
A condessa começou a despir-se diante de um espelho. Tiraram-lhe a coifa ornada de rosas e a cabeleira empoada. Surgiram seus cabelos inteiramente brancos, aparados rente. Choviam os grampos em torno dela. Seu vestido amarelo, bordado de prata, escorregou-lhe até os pés inchados. Hermann assistiu a todos os mistérios repugnantes daquela toilette. Afinal, a condessa ficou em penteador e touca de noite. Nesses trajes, mais de acordo com a sua idade, ela parecia menos horrível e menos disforme.
Como todos os velhos, a condessa sofria de insônia. Sentou-se em uma poltrona perto da janela e despachou as criadas. As luzes foram retiradas e o quarto ficou iluminado somente pela lamparina. Muito pálida, a condessa movia os lábios pendidos e se balançava da direita para a esquerda. Em seus olhos apagados lia-se uma ausência completa de pensamentos, e, vendo-a balançar-se daquela maneira, poder-se-ia crer que o movi-mento da horrenda anciã não provinha de sua própria vontade, mas de uma secreta corrente galvânica.
Subitamente, aquela face de cadáver mudou de expressão. Os lábios pararam de mexer, os olhos animaram-se. Um desconhecido estava diante da condessa.
- Não tenha medo, senhora - disse ele numa voz surda mas bem distinta. - Pelo amor de Deus, não tenha medo. Não tenho a menor intenção de lhe fazer mal. Venho implorar-lhe um favor.
A velha olhava-o em silêncio e parecia não ouvir. Hermann julgou que ela era surda e, curvando-se sobre o seu ouvido, repetiu as mesmas palavras. A velha mantinha-se em silêncio.
- A senhora pode - continuou Hermann - assegurar a felicidade de minha vida, sem que lhe custe nada. A senhora mesmo, eu sei, pode indicar-me três cartas que...
Hermann parou. A condessa pareceu enfim compreender o que dela desejavam. Parecia procurar palavras para responder.
- Foi um gracejo - disse por fim. -Foi um gracejo, juro!
- Não se graceja dessa maneira - replicou Hermann em tom irritado. -Recorde-se de Tchaplitzki. Graças à senhora ele pôde ganhar.
A condessa pareceu perturbada, sua face exprimiu uma viva emoção. Mas logo recaiu em um estupor imóvel.
- Pode indicar-me as três cartas ganhadoras? - insistiu Hermann.
A condessa permaneceu silenciosa. Hermann retomou:
- Por que guarda o segredo? Para os seus netos? Eles são ticos. Além disso, nem sequer dão valor ao dinheiro. As três cartas em nada auxiliarão um perdulário. Quem não soube guardar o seu patrimônio morrerá na miséria, apesar dos empenhos mais diabólicos. Não sou um perdulário. Não o sou. Sei o que vale o dinheiro. As três cartas não serão desperdiçadas por mim. Vamos...
E, com enorme ansiedade, fremindo, esperou a resposta. A condessa permaneceu muda. Então, Hermann se pôs de joelhos:
- Se o seu coração já conheceu o amor, se recorda seus enlevos, se já sorriu ouvindo o vagido de um recém-nascido, se algum sentimento humano já lhe fez pulsar o coração, imploro, pelo amor de uma esposa, de um amante, de uma mãe, por tudo que sagrado na vida, revele-me o segredo. Que a detém? Estará ele ligado a algum pecado terrível, à perda de sua salvação eterna, a algum pacto diabólico? Reflita. A senhora está velha, pouco tempo terá de vida. Estou disposto a tomar sobre mim o seu pecado. Revele-me somente o segredo. Pense em que a felicidade de um homem está em suas mãos, que não somente eu, mas meus filhos e netos bendiremos para sempre sua memória e a venera-remos como a uma santa.
A velha nada respondeu. Hermann levantou-se.
- Bruxa! - gritou ele rangendo os dentes. - Saberei fazê-la falar!...
E puxou uma pistola do bolso. À vista da arma, pela segunda vez a condessa demonstrou violenta emoção. Balançou a cabeça, es-tendeu os braços, para se proteger da arma. Depois, de súbito, tombou para trás e permaneceu imóvel.
- Vamos, não seja criança! - disse Hermann tomando-lhe a mão. - Peço-lhe pela última vez: quer revelar-me as três car-tas? Sim ou não?
A condessa não respondeu. E Hermann compreendeu que ela estava morta.

IV

7 Mai 18..
Homme sans moeurs e sans religion!
Correspondance

Lisavéta Ivanovna, ainda em traje de baile, estava sentada em seu quarto, imersa em profunda meditação. Assim que chegara, apressara-se a dispensar a sua criada de quarto que, semi-adormecida, oferecera de má vontade os seus serviços. Não necessitava de ninguém para se despir, dissera. Depois, toda trêmula, subira ao seu quarto, esperando lá encontrar Hermann e, ao mesmo tempo, desejando que ele lá não estivesse. Ao primeiro olhar, verificou a sua ausência e agradeceu ao destino por havê-lo impedido de vir. Sem mudar a roupa, sentou-se e começou a passar em revista todas as circunstâncias dessa aventura começada há tão pouco tempo e já tão adiantada. Apenas três semanas se ha-viam passado desde que, de sua janela, vira pela primeira vez o oficial. E agora, já respondera às suas cartas e até lhe concedera um encontro noturno. Sabia o seu nome somente porque algumas de suas cartas eram assina-das. Jamais lhe falara, jamais lhe ouvira a voz. E, coisa estranha, até aquela noite, nem se-quer ouvira qualquer referência a seu respeito. Naquela noite, no baile, Tomski, despeitado com a jovem princesa Paulina***, que, contra os seus hábitos, coqueteava com outro, resolveu vingar-se, fingindo indiferença. Convidou Lisavéta para uma interminável mazurca. Enquanto dançava, fez uma série de gracejos sobre o interesse particular que ela dedicava aos oficiais de Engenharia, fingindo saber sobre o assunto muito mais do que ela poderia supor. Algumas de suas alusões foram tão acertadas que, mais de uma vez, Lisavéta Ivanovna julgou estivesse descoberto o seu segredo.
- Quem lhe contou tudo isso? - perguntou ela sorrindo.
- Um amigo da pessoa que sabe -respondeu Tomski. - Um homem muito estranho.
- Quem esse homem estranho?
- Chama-se Hermann.
Lisavéta Ivanovna nada respondeu, mas sentiu que seus pés e suas mãos gelavam de repente.
- Hermann - continuou Tomski -realmente é uma personagem de romance. Tem o perfil de Napoleão e a alma de Mefistófeles. Creio que deve ter, no mínimo, uns três crimes na consciência. Mas como está pálida!
- Dói-me a cabeça. Mas que lhe disse esse... Hermann, ou, como se chama?
- Hermann está descontente com o seu amigo. Diz que, em seu lugar procederia de outro modo. Suponho mesmo que Hermann tem intenções a seu respeito. Pelo menos, não com indiferença que ouve as confidências amorosas de seu amigo.
- Mas onde ele me viu?
- Na igreja talvez, em algum passeio, só Deus sabe. Talvez em seu próprio quarto, enquanto dormia. Ele é bem capaz disso!
Nesse momento, três damas, aproximando-se para convidar Tomski a escolher entre oubli et regret, interromperam a conversação que excitava dolorosamente a curiosidade da jovem. Ela notou que a dama escolhida por Tomski era a princesa Paulina... Ele teve bastante tempo para se explicar, enquanto dançava e demorando antes de sentar-se.
Ao recomeçarem a dança, Tomski não pensava mais nem em Hermann, nem na jovem. Ela tentou reiniciar a conversação inter-rompida, mas a mazurca terminou e logo após a condessa deixou o baile. Não houvera na conversa de Tomski mais do que simples tagarelice de dançarino, mas as suas palavras calaram profundamente na alma da jovem sonhadora. O retrato traçado por Tomski ajustava-se à imagem que ela sonhara, imagem banal, mas que, ao mesmo tempo, assustava e encantava sua imaginação excitada pelas leituras românticas. Estava ainda sentada, os braços nus cruzados, a cabeça ainda adornada de flores pendida sobre o colo descoberto. De súbito, abriu-se a porta e Hermann entrou. Ela estremeceu.
- Onde estava o senhor? - perguntou em voz afogada.
- No quarto da velha condessa - respondeu Hermann. - Acabo de deixá-la. A condessa está morta.
- Meu Deus! Que diz o senhor?
- Receio ter sido o causador da sua morte.
Lisavéta Ivanovna encarou-o e as palavras de Tomski vieram-lhe à mente: “Esse homem deve ter, no mínimo, uns três crimes na consciência”.
Hermann sentou-se no rebordo da janela e contou-lhe tudo.
Lisavéta Ivanovna ouvia-o espantada. Então, as cartas apaixonadas, as expressões ardentes, aquela perseguição audaciosa e obstinada, nada fora inspirado pelo amor. Dinheiro! Eis o que cobiçava a sua alma. E nisso não seria ela quem poderia satisfazer os seus desejos e torná-lo feliz. A pobre pequena fora somente a cúmplice involuntária de um bandido, do matador de sua benfeitora!... E ela chorava amargamente ao peso de um arrependimento tardio. Hermann fitava-a em silêncio. Estava perturbado. Mas nem as lágrimas da jovem, nem a tocante beleza da sua mágoa tocavam-lhe a alma insensível. Não sentia remorsos ao pensar na morta. Um pensamento único o possuía: a perda irreparável do segredo que lhe daria a riqueza.
- O senhor um monstro! - disse por fim Lisavéta Ivanovna.
- Não desejei a sua morte - respondeu Hermann. - A pistola não estava carregada.
Fitaram-se. O dia vinha nascendo. Lisavéta Ivanovna apagou a vela que se extinguia. Uma claridade baça espalhou-se pelo quarto. A jovem enxugou os olhos marejados de lágrimas e encarou Hermann. Ele permanecia sentado no rebordo da janela, braços cruzados, sobrancelhas franzidas ameaçadoramente. Nessa postura, lembrava extraordinariamente o retrato de Napoleão. A semelhança chocou-a.
- Como sairá o senhor? - disse por fim. - Pensei em fazê-lo sair pela escada secreta. Mas, para isso, preciso passar pelo quarto da condessa. E tenho medo.
- Diga-me como encontrar a escada secreta. Irei sozinho.
Lisavéta Ivanovna levantou-se, tirou uma chave da gaveta, entregou-a a Hermann, dando-lhe as indicações necessárias. Hermann apertou-lhe a mão gelada e inerte, pousou os lábios em sua testa abaixada, e saiu.
Desceu a escada de caracol e, de novo, entrou no quarto da condessa.
Ela estava sentada, muito rígida. Sua face espelhava uma calma profunda. Hermann deteve-se diante do corpo e o contemplou longamente, como para se certificar da terrível verdade. Por fim, entrou no gabinete vazio e, sob as tapeçarias, encontrou a porta para a escada secreta. Começou a descê-la. Estranhos sentimentos o agitavam. “Por esta mesma escada - pensava ele - há sessenta anos, a esta mesma hora, vestido de verde, penteado a l’oiseau royal, apertando o unicórnio contra o peito, deslizava furtivamente, deste mesmo quarto, um jovem e feliz amante que, há muito tempo, não mais do que pó. E o coração de sua amada somente hoje deixou de pulsar...”
Ao pé da escada, Hermann encontrou uma porta. Abriu-a com a chave que trazia, encontrou um corredor que o levou até a rua.

V

Esta noite apareceu-me a finada baronesa de W***. Estava toda de bronco e me disse: “Bom dia, senhor conselheiro.”
Swedenborg

Três dias após a noite fatal, Hermann dirigiu-se ao convento de***, onde deveriam realizar-se os funerais da condessa. Embora não sentisse remorsos, Hermann não podia abafar de todo a voz da consciência, que lhe repetia sem cessar: “és o assassino!” Embora não possuísse nenhuma crença, tinha numerosas superstições. Acreditava que a morta poderia exercer uma influência nefasta sobre
a sua vida e resolveu comparecer aos funerais para pedir-lhe perdão.
O templo estava cheio. A muito custo conseguiu Hermann romper a multidão. O ataúde estava sobre um rico catafalco, em-baixo de um dossel de veludo. A morta re-pousava em seu caixão, as mãos cruzadas sobre o peito, com uma touca de rendas e vestido de cetim branco. A família e a criadagem cercavam o catafalco. Os criados, vestidos em caftans negros, guarnecidos nos ombros com listões brasonados, empunhavam círios; os filhos, os netos, os bisnetos, todos vestiam luto pesado. Ninguém chorava. As lágrimas teriam parecido une affectation. A condessa era tão velha que a sua morte não podia surpreender ninguém, e os seus parentes já de há muito a consideravam fora do mundo. Um jovem bispo pronunciou a oração fúnebre. Em termos simples e tocantes, descreveu o fim tranqüilo daquela mulher jus-ta, que na sua longa existência nada mais fizera do que uma preparação doce e calma para uma morte cristã. “O Anjo da Morte -disse o pregador - surpreendeu-a, vigilante, em suas meditações piedosas e à espera do Noivo da Meia-Noite.”
O serviço fúnebre processou-se em melo de uma aflição discreta. Os parentes vieram despedir-se da morta peta última vez. Depois deles, os numerosos convidados se inclinaram ante aquela que durante tantos anos havia tomado parte nos seus frívolos prazeres. De-pois se aproximaram os criados da casa e, em último lugar, a favorita da morta, tão velha quanto ela. Duas jovens a sustinham. Mal tinha forças para se arrastar, mas foi a única a derramar algumas lágrimas ao beijar a mão gelada de sua ama. Após ela, Hermann decidiu aproximar-se do féretro. Prosternou-se e assim permaneceu durante alguns instantes sobre as lajes frias, juncadas de ramos de pinheiros. Levantou-se afinal, tão lívido quanto a morta, subiu os degraus do catafalco e inclinou-se... Nesse momento, pareceu-lhe que a morta lançava-lhe um olhar zombeteiro, piscando um olho. Com um movimento brusco, Hermann lançou-se para trás, perdeu o equilíbrio e caiu surdamente a fio comprido. Levantaram-no. No mesmo instante carregavam da nave o corpo de Lisavéta Ivanovna, que perdera os sentidos. O incidente quebrou por alguns minutos a solenidade da cerimônia fúnebre. Um murmúrio surdo elevou-se da assistência. Um esquelético camareiro nobre, parente próximo da morta, segredou ao ouvido de um inglês ao seu lado que o jovem oficial era filho ilegítimo da condessa. Como resposta obteve apenas um “Oh” muito frio.
Durante todo o dia Hermann foi presa de extraordinário mal-estar. Contra seus hábitos, jantou sozinho em um restaurante, bebeu muito, na esperança de se atordoar. Mas, o vinho apenas aqueceu a sua imaginação.
Ao voltar para casa, atirou-se mesmo vestido sobre o leito e mergulhou em um sono pesadíssimo. Era noite alta quando despertou. A lua iluminava o quarto. Olhou o relógio, eram três horas menos um quarto. Não tinha mais sono. Sentado no leito, pôs-se a pensar no enterro da velha condessa. Nesse momento, alguém que passava na rua lançou um olhar pela janela e afastou-se logo. Hermann não lhe prestou nenhuma atenção. Um mi-nuto depois, escutou abrirem a porta da ante-câmara. Pensou que fosse a sua ordenança, bêbada como sempre, voltando de algum passeio noturno. Mas não era um passo desconhecido. Andavam arrastando as chinelas. A porta abriu-se e uma mulher vestida de branco entrou no quarto. Hermann supôs que era a governanta e espantou-se de que se recolhesse em hora tão tardia. Mas, deslizando, a mulher de branco achou-se de súbito diante dele. Então Hermann reconheceu a condessa.
- Vim a tua casa contra minha vontade - disse ela em voz firme. - Mas foi-me ordenado atender ao teu pedido. Três, sete e ás são as cartas que ganharão, uma após outra, mas não jogarás em uma delas cada noite. Depois, nunca mais jogarás em toda a tua vida. Perdôo-te a minha morte, com a condição de desposares Lisavéta Ivanovna, minha pupila.
Tendo assim falado, dirigiu-se lenta-mente para a porta, desapareceu arrastando as chinelas. Hermann ouviu estalar a porta da antecâmara e viu alguém que novamente olhava através da janela.
Hermann levou longo tempo para se re-fazer. Entrou no quarto vizinho. Sua ordenança estava bêbada como de costume e foi impossível arrancar-lhe uma única palavra. A porta da antecâmara estava fechada a chave. Hermann voltou ao seu quarto, acendeu o castiçal e escreveu os pormenores de sua visão.

VI

- Escutai!
- Como ousaste dizer-me: “Escutai”?
- Excelência, eu disse: “Queira escutar!”

Duas idéias fixas não podem coexistir no mundo moral, da mesma forma que no mundo físico dois corpos não podem ocupar ao mesmo tempo o mesmo lugar. O três, o sete e o ás expulsaram logo da imaginação de Hermann a lembrança da velha condessa. O três, o sete e o às não abandonaram mais o seu espírito e voltavam sem cessar aos seus lábios. Se via uma jovem, dizia: “Como seu corpo é esbelto! Um verdadeiro três de copas.” Se lhe perguntavam as horas, respondia: “Um sete menos cinco.” Todo homem um pouco gordo lembrava-lhe um ás. O três, o sete e o ás o perseguiam em sonhos, em seus mínimos aspectos. O três desabrochava com a forma de uma esplêndida magnólia, o sete parecia-lhe um portal gótico, o ás tomava forma de uma aranha monstruosa. Todos os seus pensamentos fundiram-se num pensa-mento único: pôr a prova o segredo tão custosamente conseguido. Pensava em deixar o exército para viajar. Era nas casas de jogo de Paris que ele pensava domar a fortuna enfeitiçada. O acaso encarregou-se de tirá-lo do embaraço. Um circuito de ricos jogadores formara-se em Moscou, sob a direção do famoso Tchékalinski, o qual passara toda a sua vida diante das mesas de jogo e em pouco tempo acumulara milhões, porque ganhava letras de banco e perdia apenas dinheiro. Ele devia a sua longa experiência à confiança dos amigos; à sua hospitalidade, a um cozinheiro famoso, à sua afabilidade e bom humor - a estima do mundo. Veio a São Petersburgo. Os jovens acorreram em massa, deixando os bailes pelas cartas e preferindo as emoções do jogo às seduções da galanteria.
Narumov conduziu Hermann. Atravessaram numerosas salas suntuosas, cheias de criados ativos e solícitos. Por toda parte muita gente. Alguns generais e conselheiros priva-dos jogavam o uíste, jovens estavam confortavelmente instalados em divãs forrados de seda, saboreando sorvetes e fumando cachimbo. No salão principal, diante de uma comprida mesa, em tomo da qual se aglomeravam uns vinte jogadores, o dono da casa bancava o jogo. Era um homem de cerca de sessenta anos, ar respeitável, cabelos prateados. Sua face redonda e fresca transpirava bondade. Seus olhos brilhantes pareciam sorrir sempre. Narumov apresentou-lhe Hermann. Tchékalinski apertou-lhe amistosa-mente a mão, rogou-lhe que não fizesse cerimônias e continuou a jogar. A rodada que estavam decidindo durou longo tempo. Havia mais de trinta cartas sobre a mesa. A cada golpe, Tchékalinski fazia uma pausa, a fim de dar aos jogadores o tempo de tomarem as suas decisões, anotar as quantias perdidas. Escutava polidamente as reclamações e, mais polidamente ainda, endireitava o canto de uma carta que alguma mão distraída havia dobrado. Enfim terminou a rodada. Tchékalinski baralhou as cartas e preparou-se para recomeçar.
- Permita-me escolher uma carta -disse Hermann estirando o braço por sobre um homem gordo que jogava a seu lado.
Tchékalinski sorriu e inclinou-se silenciosamente em sinal de pleno assentimento. Narumov felicitou Hermann peta terminação de sua longa abstinência e desejou-lhe uma estréia feliz.
- Pronto! - disse Hermann, escrevendo a giz, acima de sua carta, o montante de sua aposta.
- Quanto? - perguntou o banqueiro apertando os olhos. - Queira desculpar-me, não estou vendo.
- Quarenta e sete mil. - respondeu Hermann.
A essas palavras, todas as cabeças se vol-taram instantaneamente, todos os olhos se dirigiram para Hermann.
- Enlouqueceu - disse Narumov consigo mesmo.
- Permita observar-lhe - disse Tchékalinski, com o seu sorriso imutável - que o seu jogo é forte. Ninguém até agora apostou mais de duzentos e setenta e cinco rublos em uma carta.
- Muito bem! - replicou Hermann. -Mas, aceita ou não a aposta.
Tchékalinski inclinou-se com a mesma expressão amável de aquiescência.
- Desejava apenas observar - disse ele - que, sendo honrado com a confiança de meus amigos, não posso jogar a não ser com dinheiro na mesa. No que a mim se refere, evidentemente basta a sua palavra. Entretanto, para a boa ordem do jogo e facilidade das contas, rogo-lhe parar o dinheiro sobre a carta.
Hermann tirou do bolso uma letra bancária e a estendeu a Tchékalinski, que, após lançar-lhe um rápido olhar, a depôs sobre a carta de Hermann. Então virou as cartas. À direita saiu um nove, à esquerda um três.
- Ganha o três - disse Hermann, mostrando a sua carta.
Um murmúrio elevou-se entre os jogadores. Tchékalinski franziu as sobrancelhas, mas um sorriso apareceu logo em sua face.
- Deseja que pague já? - perguntou a Hermann.
- Peço-lhe.
Tchékalinski tirou do bolso várias cédulas e as depôs na mesa. Hermann apanhou o seu dinheiro e afastou-se. Narumov ainda não se refizera do choque. Hermann tomou um copo de limonada e voltou para casa.
Na noite seguinte retornou a casa de Tchékalinski. O dono da casa estava bancando. Hermann aproximou-se da mesa. Os jogadores abriram espaço para ele. Tchékalinski saudou-o com um gesto amável.
Hermann aguardou uma nova rodada, escolheu uma carta, cobriu-a com quarenta e sete mil rublos e mais o lucro da véspera.
Tchékalinski começou a virar as cartas. Um valete saiu à direita e um sete à esquerda.
Hermann descobriu um sete.
Houve gerais exclamações. O espanto de Tchékalinski era visível. Contou noventa e quatro mil rublos e os entregou a Hermann, que recebeu o dinheiro com sangue frio e saiu imediatamente.
Na noite imediata, Hermann reapareceu à mesa. Todos o esperavam. Os generais e os conselheiros privados abandonaram seu uíste para assistir a um jogo tão extraordinário. Os jovens oficiais haviam deixado precipitada-mente seus divãs, os criados se agrupavam no
salão. Os outros jogadores haviam deixado de apontar, aguardando com ansiedade o fim daquele jogo.
Hermann, de pé junto à mesa, dispunha-se a apontar sozinho contra Tchékalinski. Este, pálido, não deixara de sorrir. Cada um deles abrira o invólucro de um baralho. Tchékalinski baralhou as cartas. Hermann, depois de cortar, escolheu sua carta, cobriu-a com um pacote de cédulas. Aquilo parecia um duelo. Um profundo silêncio reinava em torno deles.
Tchékalinski pôs-se a virar as cartas. Suas mãos tremiam. À direita saiu uma dama, à esquerda um às.
- Ganha o às! - disse Hermann. E virou a sua carta.
- A sua dama foi vencida - disse Tchékalinski docemente.
Hermann estremeceu. Com efeito, em lugar de um às, ele tinha uma dama de espadas. Não acreditava em seus olhos, nem podia compreender como se enganara.
Nesse instante, pareceu-lhe que a dama de espadas lhe piscava um olho e lhe sorria. Chocou-o uma estranha semelhança...
- A velha! - gritou ele espantado.
Tchékalinski juntou as cédulas.
Hermann permaneceu imóvel. Logo que deixou a mesa, uma conversação animada se elevou.
- Famoso ponto - diziam os jogadores.
Tchékalinski baralhou as cartas. O jogo retomou seu curso.

Conclusão

Hermann enlouqueceu. Encontra-se no hospício Obukov, seu número 17. Não responde a nenhuma pergunta e murmura rapidamente:
- Três, sete, às! Três, sete, dama!...
Lisavéta Ivanovna casou-se com um jovem muito amável. funcionário e possui uma bela fortuna. filho do antigo administrador da velha condessa. Lisavéta Ivanovna mantém em sua casa uma jovem parenta pobre, como dama de companhia.
Tomski foi promovido a capitão e vai desposar a princesa Paulina

FIM

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