O povo russo tem uma maneira bem peculiar de nomear seus czares. Ou melhor, tinha, pois há muito tempo não existem mais czares na Rússia. Nicolau II, o último czar, foi chamado por muitos de "Nicolau, o sanguinário" e no entanto ele não foi um czar terrível. Foi na verdade um homem fraco, não sintonizado com o mundo em que vivia e as mudanças que se faziam necessárias. Ele acreditava piamente na Família Imperial Russaautocracia , achava que era realmente o melhor regime para o povo russo. Foi muito mal assessorado por seus ministros e os que eram competentes ( ou talvez menos incompetentes) não foram ouvidos. Também não era bem informado do que realmente acontecia, o que vale dizer que não lhe contavam a verdade ou no mínimo maquiavam os fatos, modificando-lhes a natureza ou amenizando-lhes a gravidade. Nicolau, por mais incrível que possa parecer, era, apesar de sua posição de chefe da nação, ou talvez por isso mesmo, um homem mal informado, com idéias erradas sobre os fatos e sobre o povo que governava.

No entanto, jamais foi um sanguinário, jamais armou intrigas e queria sinceramente o bem do povo. Só que não sabia como fazê-lo. Catarina II, sua famosa ancestral, chamada "a grande", poderia ter , essa sim, levado o nome de " sanguinária". Ela não era russa, não era a imperatriz reinante (era casada com o czarevitch, que depois se tornou czar), armou um golpe contra o próprio marido e depois mandou matá-lo. Isso, sem contar outras coisas. Foi a maior déspota de seu tempo e o povo a batizou de "Catarina, a grande". O pobre Nicolau, cuja falta foi não ser feito para governar, tornou-se "Nicolau, o sanguinário". Mas para acreditar que ele não fez jus ao nome que lhe deram, é preciso conhecê-lo um pouco.

Nicolau era o mais velho de cinco irmãos. Seu pai era o czar Alexandre III e sua mãe, a czarina Marie, em solteira princesa Dagmar da Dinamarca. Alexandre III era um homem incrível, tanto fisicamente (era alto e corpulento) quanto no temperamento dominador. Uma vez, à mesa com o embaixador austríaco, que aludiu à possibilidade de mobilizar alguns corpos de exército nos Bálcãs, ele pegou um garfo de prata e entortou-o completamente, jogando-o no prato do embaixador , deixando-o atônito e disse-lhe: "Isto é o que eu farei com o seu exército". Era um homem temido, que não admitia oposições aos seus desejos. Era exatamente o oposto de seu pai, Alexandre II, um czar liberal, que curiosamente foi assassinado por um grupo terrorista chamado "Narodna Volya"( Vontade do povo). Alexandre III, na época o czarevich, viu seu pai ser despedaçado por uma bomba! E, no entanto, ele havia libertado os escravos e estava preparando uma constituição para o povo russo. Ao se tornar czar, a primeira coisa que Alexandre III fez foi rasgar o ukasse (decreto do czar) que dava a constituição ao povo, achando que, se seu pai fora um liberal e morrera assassinado, a única coisa certa a fazer seria governar com mão de ferro. E foi assim que fez.

Sua mãe, Marie, era diferente do marido, embora os dois vivessem em harmonia. Era pequena, bonita, vaidosa e gostava de freqüentar a sociedade, dando e comparecendo a festas magnificentes.

Nicolau era o mais velho. Seu primeiro irmão, Jorge, sofria dos pulmões e nunca teve saúde, vindo a falecer aos vinte e seis anos. Depois vinha Xenia, a mais velha das meninas, que era muito ligada em Nicolau. Os dois cresceram muito amigos. Mikail era o mais jovem dos meninos e o favorito dos pais. A última era Olga, caçula e única filha do czar que nascera sob o seu reinado. Seus outros filhos tinham nascido quando Alexandre ainda era czarevich. Olga era encantadora e revelou-se ao longo de sua vida uma pessoa muito pouco convencional para uma Grã-Duquesa. Ela se casou duas vezes. A primeira foi imposta por sua mãe, mas ela se divorciou e se casou com um simples plebeu, vivendo com ele até a morte do marido. Quando morreu, morava num sobrado numa cidade do Canadá e seus vizinhos ficaram muito surpreendidos ao saberem que aquela simpática senhora era irmã do último czar da Rússia.

Nicolau e Alexandra

Casamento de Nicolau e AlexandraAinda muito jovem, o czarevich Nicolau, ou melhor, Niki, como era chamado em família, conheceu a princesa Alix de Hesse, filha do Grão-Duque de Hesse-Darmstadt, um pequeno princi- Pado alemão. Alix tinha então doze anos e viera visitar sua irmã que se casara com Serguei Romanov, tio de Nicolau. O nome da irmã da princesa Alix era Elizabeth. Alix era neta da rainha Vitória da Inglaterra. Nikki ficou muito impressionado com a pequena Alix, e quando a viu anos depois, já uma jovem crescida, apaixonou-se perdidamente por ela. E foi correspondido. O Grão-Duque Serguei e sua esposa Elizabeth, tios de Nicolau, muito contribuíram para aumentar ainda mais os laços afetivos que ligavam o jovem casal e, em 1894 os dois se casaram, uma semana após a morte do czar Alexandre III. Alix tornou-se, então, Alexandra Feodorovna, imperatriz de todas as Rússias. A jovem princesa teve que fazer um tremendo sacrifício: deixou sua fé luterana para abraçar a Igreja Ortodoxa Russa. E, apesar de assustada em fazê-lo, o fez com muita seriedade: Alix tornou-se uma ortodoxa devota.

O czar e a czarina tinham quatro lindas filhas, mas precisavam de um herdeiro para o trono. Por causa de um decreto do czar Paulo, filho de Catarina II, "a Grande", nenhuma mulher poderia governar a Rússia. Paulo odiava tanto a mãe, que criou esta lei para que o" episódio Catarina" não se repetisse. Isso fez com que Nicholas e Alexandra ansiassem por terem um filho homem, que garantiria a sucessão. Claro que Niki tinha um herdeiro: seu irmão Mikail era seu sucessor legal, mas ele preferia produzir um herdeiro do que ter que deixar o trono para seu irmão, embora os dois se dessem bem.

Alexandra se desdobrava em orações, pedindo a Deus por um filho. Um dia, em 30 de julho de 1904, suas orações foram atendidas: nascia o tão esperado herdeiro! Todos estavam maravilhados. No entanto, depois do primeiro tempo de alegria veio a terrível descoberta: Alexei, como chamaram o czarevich, era hemofílico! Para Alexandra o fato não chegava a ser uma novidade: ela era neta da rainha Vitória da Inglaterra, que era portadora do gene da hemofilia e tivera dois filhos hemofílicos. A mãe de Alexandra, a princesa Alice e sua tia, a princesa Irene eram também portadoras do gene fatal. Alexandra desenvolveu, então , um tremendo complexo de culpa. Vivia temendo pela vida do filho e passou a rezar para que um milagre o salvasse, o curasse.

Um dia ela conheceu um camponês siberiano chamado Grigori Rasputin, que lhe fora apresentado pela tia de Niki, a Grã-duquesa Anastasia, casada com o tio de Nicolau, o Grão-duque Nicholas. O mujique lhe pareceu um homem de Deus. Um dia, quando Alexei caiu e ficou de cama com hemorragia interna e os médicos nada podiam fazer para curá-lo, ela mandou chamar Rasputin. Este pediu-lhe que rezasse com ela e disse-lhe que salvaria o menino da morte. O menino não morreu e melhorou. Daí em diante, a czarina passou a acreditar na "santidade" de Rasputin e nem as provas contundentes no futuro que lhe foram mostradas contra ele fizeram-na mudar de opinião: Rasputin era aquele que Deus lhe mandara para salvar a vida de seu filho. Esta fé de Alexandra em Rasputin, misto de desespero e misticismo, levou os Romanov à ruína. O público não conhecia a doença do filho do czar e, por conseguinte não sabia como explicar a presença daquele monge libertino e rude no palácio, nem entender a influência que exercia sobre a czarina. Muitos acusaram Alexandra de ser amante de Rasputin. Isso não foi verdade, de maneira nenhuma. O czar e a czarina amavam-se apaixonadamente e, mesmo que não tivesse sido assim, a moral vitoriana de Alexandra, sua educação religiosa, muito rígida, e seu próprio modo de ser teriam impedido que o fato ocorresse. Alexandra era uma esposa fiel e dedicada e uma mãe atenta e arrasada pela doença do filho. Suas fotos de depois do nascimento de Alexis mostram o quanto ela envelheceu rapidamente com a doença do menino, quanta mortificação passou. A tragédia dos Romanov está irremediavelmente ligada à hemofilia de Alexis e à influência danosa de Rasputin que, inexplicavelmente conseguia aparecer sempre em momentos críticos da doença do czarevich e sua presença, talvez por hipnose ou por puro acaso, invariavelmente acabavam em melhora para o menino.

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