|
A
época do Pedro O Grande
A Rússia tradicionalmente introvertida e auto-suficiente deu passo girante nas áreas econômica, política, da política exterior, social e cultural, bem como nas reformas radicais do seu exército, na época do Pedro O Grande. Até o final do século XVII a Rússia não tinha nem frota mercante, nem Marinha. Estava isolada dos mares Negro e Báltico, o que dificultava o seu relacionamento com a Europa. Em 1672 Pedro I subiu ao trono de czar da Rússia. Foi ele quem desempenhou um dos mais importantes papéis na história russa. Pedro I foi o primeiro a entender a importância da Marinha e mandou várias delegações russas para aprenderem a arte de navegar nos mares da Europa. Ele foi o fundador das tropas regulares, sofisticou sua organização e logística. A vitória na Guerra do Norte (1700-1721) garantiu à Rússia o acesso ao Mar Báltico, pelo que lutou durante muitos séculos. "A janela para o Ocidente" estimulou as atividades diplomáticas e beneficiou as parcerias, principalmente com os países da Europa Ocidental. Expandindo e desenvolvendo os seus territórios em direção Norte, ao redor do rio Volga, montes Urais e além dos Urais, na Sibéria e na costa do Oceano Pacífico a Rússia tornou-se Império. No início do século XIX o Império Russo fez parar e fugir o exército-invasor do Napoleão I, Imperador francês, fato que entrou na história russa com o nome de Guerra Patriótica de 1812. Depois da abolição da escravatura em 1861 que existia na Rússia desde século XVI começou o desenvolvimento impetuoso da economia. Nas últimas décadas do século XIX registrou-se forte crescimento de manufaturas, empresas privadas, bancos e comércio. No mesmo período as disparidades sociais alcançaram o seu clímax e o descontentamento com governo foi muito generalizado. A Guerra Mundial de 1914-1918 diminuiu o potencial da economia da Rússia até o mais baixo nível, exauriu os recursos materiais e financeiros do país. Um
Czar Ocidentalista
Ao brincar num velho veleiro abandonado no Lago Pleshcheevo, o czarevitch Pedro fascinou-se definitivamente pelas coisas do mar e pelo universo da mecânica. Não demorou a verificar que nascera no lugar errado, pois o seu império, ainda que imenso, quase não tinha praias, senão as árticas, e nenhuma vocação para a indústria. Inconformado, Pedro, então um jovem gigante de mais de dois metros de altura, que se tornou o soberano de todas as Rússias aos dez anos (1682), partiu para uma longa viagem ao Ocidente. Lá, impressionou-se com os intermináveis moinhos de vento e as intermináveis fileiras de mastros e guindastes com que se deparou nas margens do rio Zaan, na Holanda. Maravilhou-se outro tanto com as manufaturas e serralharias inglesas quando chegou ao Reino Unido. Abandonando o enorme preconceito que existia na Rússia com o trabalho manual, tarefa entregue aos servos e aos tártaros, arregaçou as mangas e ele mesmo procurou adestrar-se nas ferramentas. As
Reformas de Pedro
Ao retornar a Moscou em 1698, vinha com um propósito fixo: a Rússia teria que se ocidentalizar. Tornou-se insuportável para ele deparar-se diariamente com o que identificava como os sinais mais evidentes do atraso e rudeza do seu povo, aquela gente com pouca higiene, embotada, enfiada em camisolões e com aquelas barbas bíblicas que lhes chegavam à cintura. Criou até um imposto para estimular o seu corte, pelo menos entre os que não fossem camponeses ou padres. Mais ainda enfurecia-o a dvoryantsvo, a nobreza, aquela casta vadia, arruaceira e beberrona que ele tratou de disciplinar e pôr a serviço do Estado. A Rússia, rompendo com seu passado de imobilismo asiático, devia tornar-se um país europeu mesmo que fosse a esporaços e a golpes de knute (o relho do cossaco). Recorreu Pedro a métodos bárbaros para retirá-la da barbárie, parecendo a encarnação mais perfeita do que Arnold Toynbee chamou de homo mechanicus neobarbarus.
A nobreza, por ele domada, ele colocou atrás dos burôs ou a serviço
nos quartéis, os sacerdotes no púlpito, o comerciante atrás do balcão,
e o camponês, reduzido a servo, atrás do arado. Dos suecos, importou
regras administrativas, dos ingleses as manufaturas, dos holandeses
os estaleiros, e dos alemães a ciência, que, por sugestão do filósofo
Leibniz, levaram-no a fundar a Academia Científica Russa. Para garantir
a segurança daquele território colossal que herdara, transformado por
ele em Império em 1721, institucionalizou um exército regular e uma
marinha de guerra, além de estabelecer uma moderna divisão administrativa
para o país inteiro, depois de ter subjugado a Igreja Russo-Ortodoxa
à sua vontade.
A Construção de São Petersburgo
Reformas impressionantes, mas que lhe pareceram cosméticas. Faltava-lhe um símbolo, um marco da ocidentalização. E tal ele alcançou em 1703, com a fundação, nas beiras do Mar Báltico, da cidade
de São Petersburgo, que passou a ser "a janela para Europa", uma antítese barroca e moderna a Moscou bizantina e medieval. Pedro não economizou. Atraiu para lá mais de dois mil artesãos e negociantes, recorrendo para pô-la em pé sobre um vasto pântano que se espalhava na cabeceira do Rio Neva, a arquitetos e urbanistas italianos, tais como Domenico Trezzini, e de outras partes. Esses soberbos artistas que a projetaram, erigiram uma das mais belas cidades do mundo. Não poupou vidas também. Estima-se que mais de 150 mil trabalhadores deixaram seus ossos nos pântanos que cercam as cabeceiras do Rio Neva, como tétricos alicerces dos prédios maravilhosos que começaram a se espalhar pela cidade.
Nunca mais a Rússia foi a mesma. Por isso não o perdoaram. Pedro despertou contra si o seu despotismo ilustrado, forças atávicas primitivíssimas, simbolizadas em seu extremismo pelos skóptsi, os "santos eunucos". Era uma seita de fanáticos que, peregrinando pelas aldeias, pregavam uma vida a mais próxima possível ao evangelho, e que consideravam-no, a
Pedro, o Anticristo. Os eslavófilos por sua vez, gente conservadora por excelência, apontaram-no como o destruidor da essência russa; tradicionalista, beata, e orgulhosa da sua pobreza cristã, assentada no mir aldeão. Passados três séculos dos princípios do reinado de Pedro, o Grande, a Rússia dilacera-se em ser ou não um país europeizado. Enquanto isto, em São Petersburgo, ainda lá se encontra, bem na beira do Neva, a enorme estátua de Pedro - "o Cavaleiro de Bronze" que Falconet esculpiu em 1782 -, onde se vê sua mão direita estendida para o Ocidente, como o único caminho possível para os russos seguirem. |
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||