por Guilherme Schneider

Momento histórico de extraordinário impacto mundial, a revolução russa marcou o fim de um dos últimos impérios de monarquias hereditárias e absolutistas do mundo. Com ela, o socialismo ascendeu pela primeira vez ao poder e a ideologia comunista passou a exercer profunda influência no cenário internacional e mesmo na vida interna de todas as nações.

Revolução russa é a designação que se dá ao processo que, em dois momentos no mesmo ano de 1917, derrubou o governo imperial da Rússia e instalou o comunismo no poder. O primeiro momento deu-se com a revolução de fevereiro, que promoveu a queda do czarismo e a instalação de um governo da burguesia, democrático e liberal; o segundo, com a revolução de outubro, marcou o momento da tomada do poder pelos bolcheviques marxistas, início da história de um novo país que se chamou União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Pelo calendário gregoriano, usado na maioria dos países, inclusive no Brasil, esses movimentos ocorreram em março e novembro de 1917, mas tornaram-se datas históricas segundo o calendário juliano, que conta as datas com atraso de 13 dias em relação ao gregoriano e vigorou na Rússia até fevereiro de 1918.

Ao longo da segunda metade do século XIX, a Rússia viveu uma crise profunda em conseqüência de fatores que exerciam influências recíprocas e divergentes sobre todos os setores da vida social e política do país. Vigorava no império um sistema político de monarquia autocrática que se chocava com o modelo econômico de capitalismo moderno, em que as relações de produção entrelaçavam-se com as do tipo feudal. Havia insustentáveis desigualdades econômicas e sociais entre a poderosa e privilegiada classe de nobres proprietários de terras e uma imensa população de camponeses, grande massa de maioria analfabeta que até 1861 viveu em regime de servidão. A burguesia, numerosa e influente, estava insatisfeita com as dificuldades para exercer suas atividades comerciais e industriais, e o crescente operariado, formado geralmente de camponeses expulsos do campo por falta de condições de sobrevivência, estava submetido a condições de vida e trabalho extremamente duras e que não mais existiam nos países europeus industrializados. Apenas os nobres, com seus imensos privilégios, estavam satisfeitos com a situação do país.

Resumindo, a Revolução Comuinsta eclodiu num país "atrasado" da Europa, graças à combinação de uma série de fatores:

- as derrotas da Primeira Guerra Mundial;
- o absolutismo do governo;
- a crise econômica;
- grande desigualdade social existente no país;
- a fome que atingia grande parte da população;
- pesados impostos;
- desorganização administrativa;
- desorganização econômico-social;
- derrotas sofridas em numerosas guerras;
- corrupção e incompetência do governo.

A Revolução Russa de 1917 é considerada o modelo clássico de revolução proletária que destruiu a ordem capitalista e burguesa lançando os fundamentos do primeiro Estado socialista da história da humanidade.

Portanto, a Revolução Russa de 1917 foi o modelo clássico de revolução burguesa que desmantelou a velha ordem feudal e aristocrática, criando as condições para o desenvolvimento do capitalismo moderno.

A partir de 1917, a Rússia caminhou no sentido de se transformar numa das mais importantes potências mundiais, em condições de se rivalizar com os Estados Unidos, o grande líder do mundo capitalista.

A Revolução de 1905: "Ensaio geral" para 1917

Em 1904, a Rússia entrou em guerra com o Japão pela disputa de territórios, mas foi derrotada. A situação socioeconômica do país agravou-se e o regime político do czar Nicolau II foi abalado por uma série de revoltas, em 1905, envolvendo operários, camponeses, marinheiros e soldados do exército.

Greves e protestos contra o regime absolutista do czar explodiram em diversas regiões da Rússia. Os líderes socialistas procuraram organizar os trabalhadores em conselhos (os sovietes), nos quais se debatiam as decisões políticas a serem tomadas.

Diante do crescente clima de revolta, o czar Nicolau II prometeu realizar, pelo Manifesto de Outubro, grandes reformas no pais: estabeleceria um governo constitucional, pondo fim ao absolutismo, e convocaria eleições gerais para parlamento (duma), que elaboraria uma constituição para a Rússia.

Os partidos de orientação liberal burguesa deram-se por satisfeitos com as promessas do czar. O Partido Bolchevique ficou sozinho, com seu projeto de levar adiante a revolução dos trabalhadores com a monarquia do czar.

Terminada a guerra contra o Japão, o governo russo mobilizou as tropas especiais (cossacos) para reprimir os principais focos de revolta dos trabalhadores. Diversos líderes revolucionários foram presos, desmantelando-se os sovietes.

Assumido o comando da situação, Nicolau II deixou de lado as promessas liberais que tinha feito no Manifesto de Outubro. Apenas a duma continuou funcionando, mas com poderes limitados e sob intimidação policial das forças do governo.

A Revolta de 1905 tinha fracassado, mas serviu para que os líderes revolucionários avaliassem seus erros e suas fraquezas e aprendessem a superá-los. Foi, segundo Lenin, um ensaio geral para a futura luta.

A Rússia na Primeira Guerra Mundial

A Revolução Russa já estava anunciada desde 1905. O regime czarista estava minado por várias forças contrárias: a oposição política da nobreza liberal e da burguesia, as manifestações de operários e camponeses, o crescimento dos partidos socialistas e a insatisfação das minorias nacionais submetidas ao Império Russo e obrigadas a adotar a religião, a cultura e a língua russa, em detrimento das suas.

A Rússia entrou na Primeira Guerra Mundial despreparada para uma guerra moderna e de longa duração. É verdade que seu exército possuía o maior contingente de toda a Europa, mas o comando era ineficiente, não havia apoio logístico, faltavam armas e as táticas de guerra eram ultrapassadas.

No final de 1916, o exército russo estava próximo da ruptura. Perdera cerca de 5 milhões de soldados, entre mortos, feridos, doentes ou aprisionados pelos inimigos. Em princípios de 1917, o exército russo era uma enorme massa de soldados cansados, maltrapilhos, famintos e desarmados, desejosos da paz e enraivecidos com o imperador. A Rússia estava à beira de uma revolução interna muito mais séria e radical do que a de 1905.

As Revoluções de 1917

No início de 1917, a Europa esperava por uma revolução na Rússia. A guerra não apenas havia destruído a agricultura e matado soldados russos, mas também aprofundado a crise entre a sociedade e o governo do país. Apesar de prevista, a revolução apanhou todos de surpresa. Começou com uma série de manifestações de rua em Petrogrado e, ao receber ordens de reprimir os manifestantes, as tropas aderiram aos protestos. Sem condições de governar, no dia 12 de março, no calendário ocidental, ou 27 de fevereiro de 1917, no antigo calendário russo, o czar renunciou.

Revolução Branca

A partir disso, dois poderes instalaram-se na capital, Perorado. O governo da Duma, a Assembléia dominada pelo partido burguês Kadet, e o poder efetivo das ruas, que obedecia ao Soviete de Perorado, controlado pelos partidos Mencheviques e Socialista-Revolucionário. Os bolcheviques não estavam representados, pois sua liderança estava presa ou exilada e sua participação nos sovietes era minoritária.

A Duma e o Soviete de Perorado formaram um governo provisório, liderado pelo nobre liberal Lvov, do qual participavam representantes do Kadet e dos sovietes. Era o chamado governo de coalizão.

O governo provisório procurou realizar algumas medidas inadiáveis desejadas pelas oposições políticas, tais como:

- redução da jornada de trabalho de 12 para oito horas;

- anistia aos presos políticos e permissão para o regresso ao país dos exilados;

- garantia das liberdades fundamentais do cidadão.

Esse governo provisório proclamou as liberdades fundamentais do homem, anistiou os presos, mas não resolveu os problemas prementes: "paz, pão e terra" para os camponeses.

Revolução Vermelha

Em 7 de novembro de 1917 (25 de outubro, pelo calendário russo) os bolcheviques cercaram a cidade de Petrogrado, que sediava o governo provisório com o intuito de tomar o poder. O líder do governo, Kerensky, conseguiu fugir, mas diversos outros governantes foram presos. Os sovietes da Rússia reuniram-se num congresso e delegaram o poder governamental para o Conselho dos Comissários do Povo , presidido por Lenin. Sem demora, esse conselho tomou medidas de grande impacto revolucionário, como:

- Pedido de paz imediata: Retirar a Rússia da Primeira Guerra Mundial e assinou com a Alemanha o Tratado de Brest-Litovsk, firmando a paz com os alemães.

- Confisco de propriedades privadas: Reforma Agrária, ou seja, grandes propriedades foram tomadas dos aristocratas e da Igreja Ortodoxa para serem distribuídas entre o povo.

- Estatização da economia: Controle Operário das fábricas, isto é, O novo governo passou a intervir diretamente na vida econômica, nacionalizando diversas empresas.

- Declaração do direito nacional dos povos: O novo governo comprometeu-se a acabar com a dominação exercida pelo governo russo sobre regiões como a Finlândia, a Geórgia, a Armênia entre outros.

Guerra Civil

As forças políticas ligadas ao antigo regime russo, ao tempo do czar, montaram uma organização contra-revolucionária para derrubar o poder conquistado pelos bolcheviques. Para isso, contaram com o auxílio econômico e militar de países como Inglaterra, França e Japão, que temiam a repercussão das idéias socialistas.

O governo bolchevique conseguiu, entretanto, manter-se no poder graças à resistência militar do Exército Vermelho, liderado por Trotsky. Após violenta guerra civil, o Exército Vermelho saiu-se vitorioso. Assim, o Partido Bolchevique, que desde 1918 mudara o nome para Partido Comunista, firmou sua posição no comando do governo.

Depois da vitória do Exército Vermelho na guerra civil, os países capitalistas ocidentais procuraram isolar a Rússia socialista do relacionamento internacional.

O objetivo dessa política de isolamento foi estabelecer o chamado cordão sanitário em torno dos russos para impedir a expansão do socialismo pelo mundo.

A nova política econômica

Em 1921, a situação econômica estava pior que antes da revolução. A Republica Federal Socialista e Soviética Russa (RFSSR), sofreu uma terrível redução de forças, mais do que qualquer outra grande potência, com a Primeira Guerra e, em seguida, com a revolução e a guerra civil. Sua população declinou de 171 milhões de habitantes em 1914 para 132 milhões em 1921. A perda de territórios envolveu também a perda de fábricas, ferrovias e fazendas produtivas. Os conflitos destruíram grande parte do que tinha restado. Sua produção industrial, em 1921, equivalia a 13% daquela alcançada em 1913. O comércio exterior desapareceu totalmente, a agricultura produzia menos da metade do registrado no período pré-guerra e o produto interno bruto declinou-se em mais de 60%. Nas cidades e nos campos havia fome e miséria. O campo não recebia fertilizantes, ferramentas nem roupas das cidades. Por sua vez, não produzia alimentos e milhares de pessoas morriam de frio, fome e epidemias.

No início de 1921, o poder bolchevique estava totalmente ameaçado. A base naval de Kronstadt, um dos mais vigorosos pontos de apoio militar do bolcheviques em 1917, revoltou-se aos gritos de: "Vivam os sovietes, abaixo os bolcheviques!" Os marinheiros queriam a libertação do regime. O movimento de Kronstadt, que foi massacrado, desejava o fim da ditadura de partido único, mas foi provocado pelas más condições de vida nas cidades e nos campos.

Nas regiões da Sibéria ocidental, do baixo Volga e dos Urais, havia um grande movimento de desobediência camponesa, que atacava os comboios de abastecimentos que se dirigiam às cidades.

Reconhecendo a gravidade da situação, Lenin declarou aos seus pares: "Nós equivocamos. Atuamos como se pudéssemos construir o socialismo em um país no qual o capitalismo praticamente não existia. Antes de querer realizar a sociedade socialista, há que reconstruir o capitalismo".

A partir daí surgiu a Nova Política Econômica (NEP). Não se tratava de modificar a economia soviética. Eram medidas de urgência, impostas pela gravidade da situação. Era incerteza até quando iria durar isso.

Para aumentar a produção a qualquer custo, foram tomadas algumas medidas capitalistas, como a restauração da pequena e da média propriedade na industria alimentícia, no comércio varejista e na agricultura.

Na agricultura, substituíram-se as ilimitadas e odiadas requisições de gênero por um imposto em produtos.

No setor industrial os resultados não foram muito significativos, apesar da adoção da liberdade salarial e de comércio.

A terra pertencia ao estado e era arrendada aos camponeses. Os mais ativos e influentes nas comunidades, chamados Kulaks, enriqueceram-se ainda mais. Por outro lado, muitos camponeses pobres faliram, por causa da inflação e da economia de mercado, e foram para as cidades em busca de trabalho, agravando o desemprego.

Revolução Russa - Texto 2

A Revolução Russa foi um série de acontecimentos ocorridos na Rússia imperial, que culminaram com a proclamação em 1917 de um Estado soviético, denominado União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

A expressão Revolução Russa é relativa às duas revoluções vitoriosas de 1917: a primeira, denominada Revolução de Fevereiro (março, pelo calendário juliano, então usado na Rússia), levou à queda da autocrática monarquia imperial. A segunda, denominada Revolução Bolchevique ou Revolução de Outubro, foi organizada pelo partido bolchevique contra o governo provisório instalado na primeira fase.

2.ANTECEDENTES

As reformas empreendidas, pelo czar Alexandre II, criaram uma corrente a favor de uma mudança constitucional. Em 1898, foi fundado o Partido Operário Social Democrata Russo (POSDR), que em seu segundo Congresso (1903) já contava com duas facções divergentes: os mencheviques e bolcheviques.

3.A REVOLUÇÃO DE MARÇO

Em março de 1917, foi realizada em Petrogrado (atual São Petersburgo) uma manifestação comemorativa do Dia Internacional da Mulher, que acabaria transformada em protesto contra a escassez de alimentos. As tropas amotinadas uniram-se à manifestação. A incapacidade do governo em restabelecer a ordem, levou o poder às mãos de um Governo Provisório, formado pelos membros mais destacados da Duma estatal. A falta de apoio ao czar Nicolau II obrigou-o à abdicação.

4.O GOVERNO PROVISÓRIO E O SOVIETE DE PETROGRADO

O Governo Provisório iniciou de imediato diversas reformas liberalizantes, inclusive a abolição da corporação policial e sua substituição por uma milícia popular. Mas os líderes bolcheviques, entre os quais estava Lenin, formaram os Sovietes (Conselhos) em Petrogrado e outras cidades, estabelecendo o que a historiografia, posteriormente, registraria como ‘duplo poder’: o Governo Provisório e os Sovietes.

Ao expor as chamadas Teses de abril, Lenin declarou que os bolcheviques não apoiariam o Governo Provisório, e pediu a união dos soldados numa frente que viesse pôr fim à guerra imperialista (I Guerra Mundial) e iniciasse a revolução proletária, em escala internacional, idéia que seria fortalecida com a propaganda de Leon Trotski. Enquanto isso, Alexandr Kerenski buscava fortalecer a moral das tropas.

No Congresso de Sovietes de toda a Rússia, realizado em 16 de junho, foi criado um órgão central para a organização dos Sovietes: o Comitê Executivo Central dos Sovietes que organizou, em Petrogrado, uma enorme manifestação, como demonstração de força.

5.O AUMENTO DO PODER DOS BOLCHEVIQUES

Avisado que seria acusado pelo Governo de ser um agente a serviço da Alemanha, Lenin fugiu para a Finlândia. Em Petrogrado, os bolcheviques enfrentavam uma imprensa hostil e a opinião pública, que os acusava de traição ao exército e de organização de um golpe de Estado. A 20 de julho, o general Lavr Kornilov tentou implantar uma ditadura militar, através de um fracassado golpe de Estado.

Da Finlândia, Lenin começou a preparar uma rebelião armada. Havia chegado o momento em que o Soviete enfrentaria o poder. Foi Trotski, então presidente do Soviete de Petrogrado, quem encontrou a solução: depois de formar um Comitê Militar Revolucionário, convenceu Lenin de que a rebelião deveria coincidir com o II Congresso dos Sovietes, convocado para 7 de novembro, ocasião em que seria declarado que o poder estava sob o domínio dos Sovietes.

Na noite de 6 de novembro a Guarda Vermelha ocupou as principais praças da capital, invadiu o Palácio de Inverno, prendendo os ministros do Governo Provisório, mas Kerenski conseguiu escapar. No dia seguinte, Teotski anunciou, conforme o previsto, a transferência do poder aos Sovietes.

6.O NOVO GOVERNO

O poder supremo, na nova estrutura governamental, ficou reservado ao Congresso dos Sovietes de toda a Rússia. O cumprimento das decisões aprovadas no Congresso ficou a cargo do Soviete dos Comissários do Povo, primeiro Governo Operário e Camponês, que teria caráter temporário, até a convocação de uma Assembléia Constituinte. Lenin foi eleito presidente do Soviete, onde Trotski era comissário do povo e ministro das Relações Exteriores e, Stalin, das Nacionalidades.

A 15 de novembro, o Soviete ou Conselho dos Comissários do Povo estabeleceu o direito de autodeterminação dos povos da Rússia. Os bancos foram nacionalizados e o controle da produção entregue aos trabalhadores. A Assembléia Constituinte foi dissolvida pelo novo governo por representar a fase burguesa da revolução, já que fora convocada pelo Governo Provisório. Em seu lugar foi reunido o III Congresso de Sovietes de toda a Rússia. O Congresso aprovou a Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado como introdução à Constituição, pela qual era criada a República Soviética Federativa Socialista da Rússia (RSFSR).

7.A GUERRA CIVIL

O novo governo pôs fim à participação da Rússia na I Guerra Mundial, através do acordo de Paz de Brest-Litovsk assinado em 3 de março de 1918. O acordo provocou novas rebeliões internas que terminariam em 1920, quando o Exército Vermelho derrotou o desorganizado e impopular Exército Branco antibolchevique.
Lenin e o Partido Comunista Russo (nome dado, em 1918, à formação política integrada pelos bolcheviques do antigo POSDR) assumiram o controle do país. A 30 de dezembro de 1922, foi oficialmente constituída a União de Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). A ela se uniriam os territórios étnicos do antigo Império russo.

REVOLUÇÃO RUSSA - Texto 3

Percebendo a impotência do governo provisório, os bolcheviques tornaram-se a única força organizada, sob a liderança de Trotski e principalmente de Lênin. É dele o programa de reformas denominado Teses de Abril, que, sob o lema "Pão, Terra e Paz", propunha a transferência do poder para os sovietes, a nacionalização dos bancos, o controle operário sobre as usinas, a ocupação das terras pelos camponeses e o restabelecimento da paz. Em julho, os bolcheviques organizaram um levante em Petrogrado, causando grande confusão. O governo conseguiu conter a revolução. Trotski foi preso e Lênin refugiou-se na Finlândia.

Lov deixou seu lugar para Kerenski, que formou novo governo de coalizão, que durou apenas um mês, e o país se dividiu radicalmente entre esquerda e direita. Em outubro, Lênin chegou secretamente a Petrogrado e, juntamente com Trotski, organizou uma insurreição, criando a Guarda Vermelha, milícia revolucionária formada por trabalhadores e bolcheviques. Foram convocados todos os sovietes das grandes cidades e, em novembro (outubro, no calendário russo), a Guarda Vermelha tomou os pontos estratégicos de Petrogrado e cercou o palácio de inverno.

Kerenski, abandonado por suas tropas, teve de fugir e se exilou mais tarde. Os sovietes, no dia seguinte, reuniram em congresso, confiando o poder a um Conselho de Comissários do Povo, presidido por Lênin, com Trotski nas relações exteriores e Joseph Stálin nos negócios internos. A tomada do poder pelos bolcheviques em Petrogrado foi seguida por movimentos semelhantes por parte dos sovietes locais em toda a Rússia, mas em muitas regiões houve resistência.

Foi Lênin - homem de ação e teórico marxista - quem conduziu o país para o socialismo. Em nome dos interesses da revolução, assumiu o governo, procurando satisfazer de imediato as exigências populares: aboliu a propriedade privada e doou terras para os camponeses, estabeleceu o controle operário sobre as usinas e lançou uma proposta formal para a conclusão de um acordo de cessar-fogo e para o início das conversações de paz. Os países aliados, porém, se recusaram a reconhecer o governo soviético, que em dezembro iniciou isoladamente as negociações com a Alemanha e seus aliados, na cidade de Brest-Litovsk, na Bielorrússia. Em março de 1918 foi assinado o tratado de paz, em condições ruinosas para a Rússia, e a capital soviética transferida de Petrogrado para Moscou, como medida de segurança.

Lênin pretendia agora reerguer a produção russa. Porém, suas medidas foram retardadas pelas hostilidades externas e por frequentes sublevações internas, contrárias ao novo poder. Antigos oficiais czaristas, cossacos e prisioneiros russos do exército austríaco constituíram o exército contra-revolucionário, chamado Exército Branco. Seguiram-se várias batalhas travadas entre brancos e vermelhos. Em agosto de 1918, Lenin foi gravemente ferido num atentado e os comunistas reagiram com a adoção de uma política de terror, com fuzilamento de reféns, julgamentos sumários e execução de suspeitos. Para reprimir as manifestações de resistência foi criada uma polícia secreta, a Tcheka, que mais tarde se transformaria na KGB.

Seria essencial levar a revolução comunista aos países industriais do Ocidente. O Comintern foi formado em 1919 para organizar e financiar esse esforço. Ramo do Partido Comunista, essa organização operava sob a proteção de seu Comitê Central. Deveriam ser criados ou formados, no exterior, partidos comunistas submetidos às ordens de Moscou, a partir de cisões nos partidos social-democratas. Lênin introduziu uma política denominada comunismo de guerra, que pressupunha quatro conjuntos de medidas:

1- Nacionalização de todos os meios de produção e transporte;

2- Abolição do dinheiro e sua substituição por símbolos de permuta e bens e serviços gratuitos;

3- Imposição de um único plano para toda a economia nacional;

4- Introdução do trabalho compulsório.

A produção industrial e agrícola durante o governo de Lênin não foi suficiente para reabastecer o país, ocasionando a deterioração da moeda e o enfraquecimento do comércio. Isso impossibilitou a aplicação imediata de um comunismo integral. Por isso, em 1921, Lênin procurou adotar uma política mais flexível, cuja finalidade imediata consistia em induzir os agricultores a venderem seus produtos e os comerciantes privados a servirem de intermediários entre produtores e consumidores. Foi inaugurada a Nova Política Econômica (NEP): "abandonar temporariamente a implantação do socialismo para se tomarem os domínios econômicos do capitalismo de Estado".

Nesse esquema de capitalismo dirigido e controlado, o Estado não requisitaria mais as colheitas e os camponeses pagariam um imposto e poderiam vender a safra. A NEP liberou o comércio interno, permitiu o pagamento de horas extras de trabalho, estimulou os investidores estrangeiros e indiretamente reconheceu o direito à propriedade privada abolida ao tempo do comunismo de guerra. O estado mantinha o monopólio do comércio externo mas algumas das maiores organizações industriais foram autorizadas a negociar diretamente com o exterior. A importação de máquinas modernizou a indústria e os agricultores e comerciantes foram estimulados a se agrupar em cooperativas. A NEP favoreceu o crescimento das rendas internas, porém, foi responsável pela formação de uma categoria de intermediários que enriqueceram com facilidade e estavam pouco dispostos a aceitar o socialismo.

Consolidada a revolução, a Rússia estava pronta para acionar as instituições que a transformariam numa grande potência. Assim que a NEP foi adotada, Lênin assinara um acordo comercial com a Inglaterra, rompendo seu isolamento e dando ao regime contornos definidos. A Ucrânia e as regiões do Cáucaso e da Ásia Central uniram-se numa federação e, juntamente com a Rússia, formaram, em 1922, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Lênin morreu em janeiro de 1924, e a sucessão foi disputada por membros influentes do partido - Trotski e Stálin. Para impedir o retorno ao capitalismo, o governo impôs severas restrições e pesados tributos ao comércio privado e o poder da Tcheka foi ampliado, para garantir a segurança do Estado. Stálin, que tinha o controle da máquina governamental, conseguiu desarticular a oposição em 1927, expulsando Trotski e seus aliados como dissidentes.

A crescente prosperidade da URSS convenceu os empresários de que o restabelecimento de relações diplomáticas com o estado soviético abria boas perspectivas de expansão comercial. Em 1924 o Reino Unido reconheceu a URSS e, no espaço de um ano, todas as grandes potências, exceto os Estados Unidos, seguiram-lhe o exemplo.

A NEP, que possibilitara a restauração da economia russa após a guerra civil, não teria utilidade na realização da meta de Stálin: o industrialismo. Então a URSS entrou na era dos Planos Quinquenais. O primeiro plano (1928-1932) visava sobretudo à transformação industrial. O setor privado desapareceu, em proveito do Estado. Foram investidas grandes somas em eletrificação e no desenvolvimento da indústria pesada. No setor agrícola, foram formados os kolkhozes (fazendas coletivas) e os sovkhozes (fazendas estatais), assegurando a mecanização da agricultura.

O segundo plano quinquenal (1933-1937) pretendia desenvolver sobretudo a indústria leve, a de bens de consumo. A economia planificada apresentou resultados excepcionais. A URSS foi o único país do mundo que não sofreu a crise de 1929, fechada em si mesma, vivendo das trocas internas, não conheceu nem a superprodução nem o desemprego. A produtividade energética cresceu consideravelmente e a indústria metalúrgica passou a ocupar a terceira posição do mundo.

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